Dois amigos conversavam animadamente no clube, próximo a piscina, quando Júlia passou:
— Arthur, você sentiu o magnetismo daquela criatura? Quando ela passa, o sangue da gente resolve mudar de direção, ignora o juízo e vai direto para onde o perigo mora. Que corpo deslumbrante, que brilho em seus olhos.
— Esquece Ricardo, ela é novinha demais. Aquilo é chave de cadeia. O brilho no olho dela não é sabedoria, é falta de boleto para pagar.
— Você envelheceu mesmo, meu caro. Ela é um enigma que só um quarentão como eu pode decifrar.
Olhou para o seu Rolex e saiu dizendo: “Ainda vou pilotar aquele avião”.
Ricardo atravessou o deque da piscina com a confiança de quem conhece cada centímetro daquele clube. Ajeitou os óculos escuros de grife, deu um toque sutil nos cabelos levemente grisalhos e parou a dois passos da espreguiçadeira onde o ‘enigma’ navegava, distraída, em seu celular:
— Sabe, o sol de fim de tarde no Rio tem uma tonalidade que só as grandes obras de arte conseguem capturar. E você, minha cara, parece ter saído de uma tela de Renoir.
Falou com voz de barítono, sorrindo para a menina. Ela levantou os olhos e neles não havia a timidez que Ricardo esperava, mas uma curiosidade quase antropológica. Ela o olhou, e com ar de curiosidade, perguntou:
— Renoir? É algum filtro novo do Tik Tok?
O vácuo na conversa fez o tique-taque do relógio ecoar como uma contagem regressiva. Ricardo sustentou o sorriso, condescendente. Para ele, aquele abismo cultural era apenas o tempero de uma ingenuidade que ele pretendia saborear com calma:
— Não exatamente. É um clássico. Como um bom vinho. Algo que a gente aprende a apreciar com o tempo… e com a experiência. Posso lhe oferecer um drink? Um espumante, talvez?
— Ah, eu adoraria, mas acho que o barman vai pedir meu RG e vai dar ruim. Ainda não fiz dezoito.
Ricardo sentiu um estalo seco no peito. Não eram batidas de um coração excitado, mas sim da realidade batendo no ego:
— Ainda não fez dezoito? — Ele repetiu as palavras que pesavam como chumbo.
— Mas a festa será no final do mês que vem. Vai ser incrível. Meus pais estão preparando uma festa temática de “anos 80/90”, super retrô, tipo museu, sabe? Terá até aquelas fitas cassete, videogame de “come-come”. Você iria amar, pois parece que viveu tudo isso.
Nesse momento, um rapaz de cabelos desgrenhados e camisa da banda K-Pop BTS se aproximou, entregando a ela um picolé de uva:
— Oi, Ju. Vamos para a sala de jogos. Acabaram de liberar um novo jogo no PS5 e eu já consegui passar para a terceira fase. Você vai adorar…
Ela se levantou, com a agilidade de quem tem o colágeno em dia, colocou dois dedos sobre os lábios e atirou um beijo para ele:
— Foi um prazer, tio Renoir! Aproveita o drink, vou mostrar a esse fedelho como se joga no PS5.
Ricardo ficou parado, observando o “avião” decolar, no piloto automático. O sol, que antes trazia uma aura artística, agora parecia a iluminação fria de uma galeria sobre uma peça de exposição. Sentiu os joelhos reclamarem, ao virar bruscamente, era o peso do tempo que, para a menina, era um recurso natural amplamente disponível.
De longe Arthur, com um sorriso sarcástico, levantou o copo de uísque em um brinde silencioso. Ricardo arrasado rendeu-se às evidências: um quarentão com história, torna-se um capítulo de um livro que a nova geração só irá ler se for cair no ENEM.





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