M., quinze anos, abriu o armário do pai e pegou a caixa de ferramentas. Tesoura, alicate, serra, chave de fenda, chave Philips, chave inglesa. Guardou tudo na mochila. Olhou para dentro do apartamento, uma última vez, como se certificasse de que não tinha esquecido nada. Talvez tivesse sim esquecido algo importante: quem ele era ou por qual razão estaria fazendo aquilo. Já não importava. Seguiu em frente, fechou a porta, guardou a chave.
A duas quadras dali, Maria se perguntava por onde andaria seu filho. Tinha saído para fazer compras cinco minutos antes do rapaz entrar. A verdade que ela ignorava é que seu garoto, como gostava de chamar, estava à espreita, só esperando a genitora sair para que pudesse buscar todos os objetos necessários. A mãe sentiu saudades de tudo. Até das vezes em que chamava o nome, avisando que a hora da brincadeira já tinha acabado. E que, se não obedecesse, ficaria de castigo, trancado a sete chaves:
— Já para casa. Vai tomar banho, moleque. Você ainda nem fez o dever!
Lembrava da habilidade prematura nas aulas de canto e violão. A voz de criança não tinha dificuldades para alcançar as notas mais agudas: clave de sol. Recordou também, com carinho, a tranquilidade que era tê-lo debaixo das suas asas, enquanto assistiam juntos aos desenhos de heróis ou mesmo aos repetidos episódios das séries antigas: Chapolin, Chaves…
Distante dos pensamentos da mãe estava a mente do filho. A adrenalina que percorria todo o seu ser só permitia repassar cada etapa do plano. Boca já havia providenciado a escada. Zoião ficaria vigiando. Caberia ao nosso jovem protagonista inominado a tarefa de subir o poste, cortar os cabos e levar até a esquina, onde o primo de Boca o esperaria, dentro do carro. Já tinham até o comprador certo: um insuspeito empresário de produtos reciclados da região. Agora, era só esperar o momento oportuno e concluir a operação com chave de ouro.
Meia-noite, o grupo entrou em ação. Quando M. desceu a escada se deparou com dois agentes da guarda municipal, os quais monitoravam tudo pelas câmeras de segurança da cidade. Zoião, Boca e o primo de Boca já estavam longe. Os agentes públicos nem quiseram saber da pouca idade do delinquente. Jogaram logo o meliante no chão e o imobilizaram com uma chave de braço.
O adolescente entrou na viatura e foi conduzido à delegacia. Logo foi lavrado o auto de flagrante de ato infracional. A responsável foi imediatamente intimada. Na frente do delegado, Maria jurou que ele era um bom garoto. O problema, evidentemente, eram as más companhias. Tudo chave de cadeia.





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