Chave de cadeia. Chave de cadeia. Agenor repetia pra si mesmo, pronunciando sílaba por sílaba, lentamente, para se convencer de quem era Kátia Flávia.
Qualquer semelhança com a louraça gostosona de Irajá era mera coincidência. Seu nome, uma homenagem às avós, a quem não chegou a conhecer. Sua intrepidez, consequência de uma infância vazia, após a morte brutal de seus pais. A sensualidade, a arma que aprendeu a usar para manipular as pessoas. Especialmente os homens.
A mulher que estava à sua frente em nada lembrava aquela menina com quem brincava no grupo escolar de Marechal Hermes. Agenor e Kátia Flávia eram crianças tímidas que se entendiam pelo olhar. Não careciam de gritar como as outras crianças. Careciam de um olhar profundo e um toque ingênuo de suas mãos. Brincaram juntos até os dez anos. Depois, a vida encarregou-se de separá-los e de dar-lhes chicotadas. Inúmeras. A morte dos pais dela. O desaparecimento da mãe dele. A esquizofrenia do pai. Os relacionamentos fracassados de ambos. A extensa ficha criminal de Kátia.
E por uma grande ironia do destino – ou não – aquela menina estava novamente diante dele. Com olhar profundo, gritando silenciosamente por socorro. Não podia tocá-lo. Estava algemada. Era uma criminosa. Agenor, um investigador de polícia obstinado e conhecido por seguir os rigores da lei. Mas qual lei poderia julgar aquele reencontro?
Ele estava convencido de quem era aquela mulher que havia prendido. Uma golpista. Contraventora. Ladra. Ele estava certo. Mas o que ele não havia descoberto era o motivo de Kátia Flávia ter se tornado essa mulher. O delegado, como de praxe, permitiu uma ligação para o advogado. Ela recusou. Queria falar com o investigador. O delegado não se opôs. Mandou chamar Agenor. Kátia se declarou abertamente. Disse a ele o quanto o amava. O quanto o amou desde sempre; desde a infância. E o quanto sofreu por terem se perdido pelos reveses da vida. Mas quando soube que ele se tornou investigador de polícia, tratou de cometer crimes para ser investigada e presa por ele. Só ele poderia salvá-la de si mesma. Diante dessa declaração à queima-roupa, Agenor perdeu o prumo. Suas convicções se diluíram num instante e seu muro de proteção veio abaixo.
Um ano e meio após o prisão de Kátia Flávia, eles festejaram o casamento. Ela conseguiu a condicional. Eles fizeram questão de abrir a porta da casa nova juntos. O chaveiro, um presente das companheiras de cela: um coração de prata com uma frase gravada “Para ser feliz, mantenha a porta aberta.”





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