mulher espelho reflexo

Carne de pescoço

O casal de empresários, dono de uma rede de restaurantes de massas recheadas, tinha fama de ser afetuoso demais. Pagavam bons salários, pareciam ser bons patrões, e convidavam alguns funcionários especiais para jantar com eles em casa. “Somos como uma família”, diziam sorrindo com aqueles dentes perfeitos de propaganda de pasta de dente.

Rita Cordeiro foi contratada depois de uma série de demissões inexplicáveis. Logo nos primeiros dias, os patrões a convidaram para jantar:
— Aqui valorizamos muito a relação entre patrões e funcionários. Seria um prazer ter você com a gente.

Rita desconfiou demais daquele convite. Aceitou, pois precisava manter o emprego. Pouco antes de terminar o expediente, ela ouviu um aviso entre os dentes de um antigo funcionário:
— Eles vão querer comer você.

Primeiro Rita riu. Depois achou que eram ciúmes, depois alguma pista errada e por último um aviso sincero de um funcionário preocupado:
— Eu sou carne de pescoço. Chave de cadeia mesmo. Patrão nenhum vai se engraçar comigo. Já botei muito marmanjo pra dormir – disse Rita diante do espelho enquanto se arrumava pra ir ao jantar.

Rita tocou a campainha e entrou. Sentou na sala com a patroa e dava respostas curtas, tentando ser educada e acreditando que aquilo poderia ser só coisa da sua cabeça. Afinal, quem não gostaria de um jantar sofisticado e de graça?

E realmente, o jantar estava maravilhoso. Rita foi comendo com prazer e só aos poucos foi percebendo os olhares dos patrões. Olhavam um para o outro, olhavam pra ela, e a dança se repetia. Até que o olhar virou o rumo da conversa:
— Esse seu Cordeiro é de pai ou de mãe? — disse o patrão de forma despretensiosa.
— É de pai. Família religiosa.
— Sabia que a carne do cordeiro é deliciosa porque ela é de um animal jovem?
— Não sabia. Nunca me liguei nisso, só na oração “Cordeiro de Deus…”
— É, mas o cordeiro tem uma carne muito apreciada, assim como a sua.

E foi aí que a chave de Rita virou:
— Olha aqui, vocês podem ter dinheiro pra caraca, serem donos da porra toda, mas eu não sou marmita de casal granfino não, tá ligado!

Logo depois de Rita levantar a voz, o patrão e a patroa vieram pra segurar seus braços. Com muita rapidez, Rita se desvencilhou e os surpreendeu com um spray de pimenta que tinha levado na bolsa atirando nos olhos deles. Ela trancou os dois na sala de jantar, passou a mão no telefone e ligou para a polícia. Como em bairro de rico a polícia chega rápido, a casa logo estava cheia de policiais. Uma policial tenta acalmar Rita:
— Fique calma. Já estávamos investigando esse casal. A suspeita é que eles são canibais e estavam comendo alguns funcionários. Recebemos uma denúncia anônima, mas só agora temos uma prova.
— O que?! Então o papo que eles queriam me comer era… pela boca!?
— Tudo indica que sim — disse a policial diante de uma Rita ainda apavorada.

Rita Cordeiro, chave de cadeia que era, dessa vez ajudou a colocar os patrões na tranca, vingando não só quem já foi muito explorado, mas quem já trabalhou em escala 6×1, já satisfez muito capricho de chefe e nem assim foi suficiente. Vai se ferrar!