nova iguaçu carnaval

Outros tempos

As portas das casas estão abertas. É um entra e sai constante. Não há limite entre o muro, a rua e o portão do vizinho. Pelo menos, não havia. Bairro simples, gente simples e amistosa. Era Natal ou um novo ano que estava prestes a adentrar pelas casas musicais, cheias de vozes e cheiro de rabanada que vinha da cozinha. A mesa era posta para quem quisesse se servir depois da meia-noite.
— Quer um pratinho, vizinho? Daqui a pouco vou lá provar da sua ceia também.

Nessa época, não havia muitas luzes como hoje nas fachadas. Mas a árvore de Natal, muitas vezes, feita de galho seco e coberta de algodão e bolas de vidro, completava a decoração. Era uma época de reconciliação. Havia pessoas que ficavam sem se falar o ano inteiro, mas depois de um vinho e outro, vinham com a maior cara de pau pedir perdão e desejar bons votos.

Eu era uma jovem sonhadora nessa época, mas não gostava nem um pouco daqueles relacionamentos frágeis que não se sustentavam. Passados os primeiros meses, as amizades e amores refeitos se dissipavam, era Carnaval. A Luiz de Lemos virava uma grande avenida de alegria, samba e fantasia. Nas ruas paralelas, como na rua em que eu morava, a Emílio de Menezes, bate-bolas assustavam as crianças, não com a malícia de hoje, mas pela brincadeira mesmo. E os blocos movimentavam os bairros Posse, Carmary, Vila Anita, Nova América e adjacências. Hoje não vejo mais nada disso.

E em junho, julho, agosto? Surpreendentemente as ruas ficavam coloridas novamente. O brilho da purpurina dava lugar ao colorido das bandeirinhas e roupas folclóricas. Muitas barracas nas ruas, muita gente, música, comilança e alegria. E, quem sabe, um dinheirinho a mais no bolso dos barraqueiros? À meia-noite, uma grande fogueira era acesa. Eu adorava ver aquele tumulto. Nem precisava ir ao centro de Nova Iguaçu, na festa do vai e vem. Perto da minha casa já tinha muita animação. Onde estão todos? Cadê a fogueira? Cadê o vizinho entrando na minha casa para comer rabanada e me dar um abraço? Os tempos são outros. As pessoas mudaram, de status, de vida, de relacionamentos… ou partiram para outra dimensão. E em meio a toda essa reflexão, caminhando no tempo, encontro um velho amigo, daqueles que ficavam meses sem falar e no final do ano vinha se reconciliar:
— E aí, amigo. Perdido?
— Oi, amiga. Um pouco. Que bom te encontrar. Quanto tempo! Você tem um minuto pra conversarmos? Preciso tanto de um ombro amigo… e nada melhor que poder desabafar com uma velha parceira.
— Claro!