Era final de tarde e a estação de Nova Iguaçu agitava-se sob pés apressados e distraídos. Ele, parado entre o primeiro degrau da escada e a plataforma, observava tudo em silêncio, imóvel, quase como uma estátua imponente, apesar de pequena. Ele era um filhote ainda, mas já ostentava um olhar firme, decidido e corajoso.
Cada trem que parava o pequeno gato preto checava de longe, mas minuciosamente. Era a paciência visível e encarnada e que há quatro dias se estabelecia irredutível sob o sol de poucos amigos e alívios. Quem passava já se perguntava o que a pobre criaturazinha ainda fazia ali, como um pedaço de noite e de canção incompleta, no meio da estação de trem.
Um senhor então saiu do terceiro vagão do trem com destino a Japeri. Carregava apenas uma bolsa muito velha nos braços e um olhar disperso. O gato imediatamente teve os olhos acesos, como duas faíscas douradas.
Ainda imóvel, o animalzinho aguardou que o tutor se aproximasse. Só então o seguiu a uma distância curta e segura. Já na Getúlio Vargas, o homem acomodou se no chão, enquanto o gatinho se enroscava repetidamente em suas pernas, e assim dividiram um pão. No manhã seguinte, o homem embarcou no trem das sete horas com destino à Central do Brasil. O gato mais uma vez se colocou no degrau dentro da estação e, enquanto o trem partia, estendeu o seu olhar tentando acompanhar o infinito e assim ficou, como quem só reconhece do mundo o retorno e o recomeço.





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