morador de rua

Vista grossa

Mário até tentou dormir, porém por volta de onze e meia da noite, devido ao calor insuportável que já arrastava correntes há três dias, decidiu dormir na Praça Itanhomi. Não possuía aparelho de ar condicionado e o único ventilador da sua pequena casa parecia pedir socorro tanto quanto ele.

O homem então caminhou por alguns poucos metros e ajeitou-se no cimento com vista para o campinho de futebol e para a igreja, alimentando a ilusão de adormecer por algumas horas, até que o sol com veemência o expulsasse de volta para casa assim que o dia despertasse.

Os brinquedos quebrados e já vazios adormeciam. As ruas faziam silêncio em respeito ao descanso dos trabalhadores. Foi então que, em vez de dormir, Mário começou a ver. Viu fantasmas sisudos de homens apressados, viu mulheres loiras e altas que sumiam e reapareciam diante dele após descerem a rua, viu crianças descalças e até cachorros que assistiam à lua enquanto ela dobrava de tamanho.

Desde sempre ele havia aprendido com os mais velhos que, ao ver um fantasma, não deveria contar a ninguém, pois ao compartilhar com alguém o ocorrido, as figuras inusitadas e audaciosas não apareceriam mais, magoadas por terem sido reveladas. Lembrou então que bem ali, embaixo da praça, há apenas dois séculos, funcionava um cemitério indígena, o que deveria ter atraído os visitantes. Como já estava tarde, Mário então finalmente conseguiu adormecer.

Aos primeiros raios de sol então ele retornou para o conforto de casa. Conforto que durou apenas vinte minutos. As batidas no portão eram fortes e sem trégua. Quem seria já cedo? Deparou-se então com um homem de altura mediana, barba rala, cabelos claros e visivelmente nervoso, desconhecido para ele naquela região:
— 
Seu Mário?
— 
Sim.
— 
O senhor está despejado. Não fez o pagamento do aluguel nos últimos quatro meses.

A surpresa foi grande. Mário, tão observador e que via inclusive seres espirituais, não viu as várias cobranças na caixa dos Correios. Talvez, inconscientemente, esperava que, se não contasse, assim como os fantasmas, elas deixariam de aparecer.

Entrou abatido e pensando no que poderia ser feito para resolver sua situação, mas novamente após alguns minutos, ouviu novas e insistentes batidas no portão. Não é possível, pensou em voz alta. Dessa vez, um homem alto e todo vestido de preto. Era um dos visitantes da madrugada retornando agora ao endereço certo:
— 
Faça o favor, me acompanhe.

Antes que pudesse responder, Mário caiu de costas, com a cabeça na varanda e os pés na entrada da casa. O plano de saúde também não havia sido pago. Era tarde para o segredo. Agora, todos saberiam.