Santo Antônio é mais que o padroeiro da minha cidade: é o padroeiro de nossa história.
Conheci Cristiane na antiga Festa do Vai e Vem, como o povo chamava a Festa de Santo Antônio de Nova Iguaçu. A rua principal, que acompanhava a linha do trem, virava uma passarela viva: barraquinhas de cocada, maçã do amor, churrasquinho, balões, risadas e o cheiro doce de milho cozido no ar. Um rio de gente caminhava de um lado para o outro, num eterno vai e vem.
Cristiane saía da Catedral, o rosto iluminado, um sorriso largo que parecia abençoado pelo próprio Santo. Talvez tivesse ido pedir um amor de verdade, como faziam as moças de então. Quando a vi, senti as mãos de Antônio me empurrando na direção dela.
Peguei um ramalhete de rosas com um ambulante e, num rompante de coragem, pedi que fosse minha namorada. Já nos conhecíamos de vista do pré-vestibular, mas nunca havíamos trocado palavra. Naquele instante, porém, o tempo se abriu, como se o Santo casamenteiro tivesse soprado o destino. Ela hesitou, disse que ia pensar, mas eu, ansioso, dei-lhe exatos sessenta segundos. Olhei o relógio; ela riu, sem saber o que dizer. Quando o ponteiro completou a volta, ouvi o “sim” mais bonito da minha vida.
Anos depois nos casamos diante do mesmo altar. O padre Pretto, que de preto só tinha o sobrenome, disse: “O que Deus uniu o homem não separa”. E nós levamos isso muito a sério.
Hoje, na terceira idade, entendo melhor o sentido daquela festa. O Vai e Vem não era só o das paqueras: era o da vida. O trem vai e vem diante da igreja; as pessoas vão e vêm; nascemos e partimos; entre alegrias e tristezas, conquistas e perdas, seguimos sempre em movimento. Santo Antônio é santo de caminho, e é no movimento que a vida acontece: geramos filhos, buscamos o pão, caminhamos pela existência.
A cidade mudou muito nessas últimas décadas. Onde antes a antiga rede de transmissão riscava o centro como um varal de ferro no céu, hoje corre a Via Light, larga e veloz, abrindo caminho para carros, gente e uma nova pressa. Os casarões deram lugar a prédios altos que mudaram o desenho do horizonte; ruas se remodelaram, bairros cresceram, o comércio floresceu. Nova Iguaçu deixou de ter jeito de cidade pequena e assumiu, de vez, a face de metrópole que sempre carregou em potência.
Nós também mudamos, mas seguimos cercados de gente querida, amigos que nos acompanham desde o namoro, outros que chegaram há pouco, mas parece que sempre estiveram por perto. Alguns se foram, como é natural no ciclo da vida. E eu e Cristiane seguimos juntos: bons amantes, companheiros de risadas, cúmplices da vida. O amor da gente é isso, um vai e vem de afeto, sustentado por laços que o tempo não desfez.
Assim, quando eu for, levarei comigo o amor e as amizades que aqui fiz. E se sobrar memória neste chão, quem sabe um vereador desses tempos loucos não me empreste o nome de uma rua, só para eu continuar, de algum jeito, participando desse vai e vem iguaçuano.





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