Dona Pureza era conhecida na rua inteira por duas coisas: o riso fácil e a língua afiada. Diziam que ela sabia de tudo e de todos antes mesmo que o fato acontecesse. Diziam também que ela tinha um “dom”, mas o verdadeiro dom de Pureza era outro: a safadeza disfarçada de inocência.
Naquela sexta-feira, véspera de feriado, ela apareceu na venda de Seu Paulo com um vestido vermelho que parecia feito de puro atrevimento: — Vim só comprar café — disse ela, piscando. Seu Paulo, viúvo há dez anos, ficou todo atrapalhado. Derrubou o saco de feijão, o troco e o juízo.
— Esse café é moído ou inteiro, Dona Pureza?
— Inteiro, Seu Paulo. Eu gosto de ver o grão antes de passar — respondeu ela, cruzando as pernas devagar.
A vizinhança, claro, não perdeu tempo. Da janela, Dona Dorinha cochichava:
— Lá vai Pureza de novo, com o vestido da perdição.
E o marido dela, rindo:
— Se eu fosse o Seu Paulo, já tinha pedido fiado com juros!
Mas Dona Pureza era só charme e conversa. Comprou o café, um pão de queijo e saiu rebolando devagar, deixando atrás dela o perfume e o falatório. Quando chegou em casa, sentou-se na varanda e deu risada sozinha:
— Homem é tudo igual — pensou — Mostra um sorriso, fala de café e eles já acham que é convite.
Minutos depois, o telefone tocou. Era Seu Paulo:
— Dona Pureza…esqueci de pesar o café direito. A senhora pode passar aqui de novo?
Ela sorriu:
— Ah, Seu Paulo… O senhor é danado. Mas hoje não posso. Só amanhã — respondeu ela com voz doce.
Desligou e piscou para o espelho:
— Safadeza pouca é bobagem — disse e foi fazer o café, inteiro, como ela gostava.





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