Pureza era uma senhorinha muito safadinha. Senhorinha? Frágil? Indefesa? Pequenina? Afinal, quem inventou essa expressão: senhorinha? Não aprecio. Pureza não tinha nada de senhorinha. Era ativa, alegre, otimista, vaidosa, sex, estudava, fazia ginástica, terapia, dança e etc.
Mas, o que ela mais gostava era do etc. Senhora de si, vivia o seu melhor momento. Era finalmente livre. Sentia-se assim: livre para fazer o que quisesse, ser o que quisesse ou o que antes não pode ser ou viver.
Ela realmente havia cumprido o que a sociedade machista esperava e esperou de uma mulher de sua época. Casou cedo e virgem com um homem mais velho e a gosto de seus pais, que já descansam em leito eterno. Foi boa mãe, esposa dedicada, fiel e recatada. Esqueceu por décadas que tinha sonhos e desejos (os mais safados, então) escondia de si própria. Mas, agora, ela podia tudo, tudo mesmo.
Estava na fila do INSS para verificar sua situação junto ao órgão e atualizar dados, quando descobriu que seus benefícios, seu extrato e saldo não correspondiam ao que deveria ser, constando, por exemplo, empréstimos que não havia feito. Sentiu-se lesada, deixando lá sua reclamação formal. Que tremenda safadeza do governo que não fiscaliza, que não honra seus aposentados e pensionistas. Havia muitas pessoas na mesma situação, que triste. Pureza, realmente, estava chateada. A sua sorte era que não dependia só daquela pensão deixada por seu marido. Tinha outra fonte de renda: dois pequenos imóveis que construiu em seu quintal e alugava.
Foi embora para casa, naquele dia tinha outros compromissos. Os dias de Pureza eram sempre muito movimentados, mais do que eram antes quando criara seus dois filhos. Passou na igreja que frequentava, rezou um pouco e encontrou um amigo, um possível “date”:
— Oi, Dona Pureza, cada vez mais linda. Vamos nos encontrar mais tarde: um jantar quem sabe?
Pureza costumava se derreter toda. Gostava de galanteios, até por que, só pensava em namorar; em recuperar o tempo mal vivido. Mas, no momento, estava preocupada com as contas, além de ser também muito seletiva. O paquera da vez tinha todas as características de quem, na verdade, queria uma cuidadora. E Pureza não era boba, não mais. Não queria saber de compromisso, a não ser com ela mesma:
— Hoje não, já temos um compromisso, na distribuição de sopa na Cidade Nova, lembra? — disse Pureza — Temos um encontro com os mais necessitados.
É, Pureza também gostava de fazer trabalho voluntário:
— Tá certo, nos encontramos lá. Até mais tarde! — respondeu o homem meio desolado, e cada uma seguiu seu caminho.
Agora em casa, precisava se arrumar porque o tempo passa rápido demais. Suspirou, enquanto se mirava no espelho e passava um batom, se lembrando do convite do amigo da igreja. Queria um chamego, mas só isso.
Já na rua, novamente, distribuindo comida para os mais necessitados, pensava: “Se os nossos governantes não fazem tudo que deveriam fazer por seus cidadãos, a Igreja, que não paga impostos, precisa fazer.” Pureza não era uma beata, nada contra as beatas mas, seu principal desejo era participar dos projetos humanitários e das festas, óbvio.
No caminho de volta para casa, Pureza pegou um carro de aplicativo com uma amiga da Igreja, que também era sua inquilina e morava no mesmo quintal, a Tereza:
— É, amiga, hoje matamos a fome de muita gente. Isso foi louvável — disse Tereza se sentindo bondosa e importante.
— Sim, foi bom, mas sinto que ainda fazemos muito pouco, mas também sei que hoje, ao menos aquelas pessoas dormirão melhor com o estômago confortado, ainda que sob as estrelas — disse Pureza pensativa.
O motorista, um rapaz bem apessoado olhando pelo retrovisor e trocando olhares com Pureza disse:
— Senhoras, desculpe a intromissão, mas eu não pude deixar de ouvir e acho o trabalho voluntário muito dignificante. Toda vez que as senhoras precisarem podem contar comigo para uma carona até suas casas. Eu sempre estou por ali nesse horário.
— Obrigada — responderam em uníssono — mas faço questão de pagar, afinal esse é o seu trabalho — acrescentou Pureza.
No término da corrida, o motorista saiu do carro e gentilmente abriu a porta para as duas. Pureza estendeu sua mão com o dinheiro para pagá-lo. O rapaz, uns vinte anos mais jovem que Pureza e uns quinze mais que Tereza, deixou maliciosamente sua mão pousar por uns segundos sobre a de Pureza, soltando um minúsculo cartão com seu telefone. Sorriu e agradeceu em seguida, percorrendo com seu olhar penetrante e sedutor toda a silhueta da madura mulher. Ela sentiu um frisson percorrer toda a sua espinha dorsal e descer. Sorriu discretamente um sorriso safadinho:
— Você viu só? Que rapaz simpático! Ainda tem gente boa nesse mundo de meu Deus. Acho que a gente devia aceitar a cortesia dele — disse Tereza com certa inocência.
— Hum-rum, com toda certeza — respondeu Pureza — com toda certeza.
Sorriu e se despediu da amiga. Esperou ela entrar e olhou no celular. Havia várias mensagens, que as ignorou. Aquele dia tinha sido memorável, apesar da descoberta da safadeza do INSS, mas podia ficar ainda melhor. Pegou o cartão, digitou o número no celular e ligou para o rapaz que mal havia dobrado a esquina, como se não quisesse ir embora, dizendo:
— Acho que esqueci algo no seu carro. Pode voltar aqui?
Ele voltou imediatamente, saiu do carro, sorriu olhando-a fixamente nos olhos com uma expressão interrogativa e em silêncio segurou em sua mão. Ela o puxou para dentro de casa e o resto você já pode imaginar.





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