idosa cadeira de rodas

Uma idade de terceira

Dona Estela precisava morrer. Diziam que ela estava na terceira idade, ou melhor idade, como diziam alguns que tiveram a sorte de usufruir os resultados do trabalho de uma vida inteira. Ela não. Os filhos já não aguentavam mais vê-la sofrer naquela cadeira de rodas. Os filhos já não aguentavam mais as agruras e os incômodos que aquilo lhes causava. Perdiam festas e outros lazeres para terem que ficar com ela, num revezamento que muitas das vezes causavam discussões e animosidades, que ficaram incrustadas através dos tempos, fazendo-os inimigos.

Dona Estela precisava morrer, pois não queria ver aquilo. Ela amava todos eles por igual, desde que cada um ainda fazia cocô nas fraldas (assim como ela, hoje). Adilson, o mais velho, aos seis meses teve uma infecção intestinal que fez dona Estela ficar muito tempo sem dormir direito, indo atrás de socorros médicos em desespero e só teve sossego depois que as fezes do seu adorado bebê voltaram a ter uma coloração normal. Adriana, sua segunda filha, tinha uma prisão de ventre que às vezes passava mais de uma semana sem defecar, apesar das massagens que Dona Estela incansavelmente aplicava durante as madrugadas em seu ventre, quando as dores espasmódicas acordavam-na. Não queria enchê-la de laxantes. Rezava para que as fezes da sua querida e mimada menininha viessem macias e indolores.

Quando André nasceu, Dona Estela teve que deixar a casa da família onde trabalhava como doméstica para cuidar daquele raquítico e último filho. O caçula, que trouxe também, quase que ao mesmo tempo, a morte de seu Antônio, deixando-a viúva e desesperada para criar sozinha três crianças, contando apenas com a ínfima pensão deixada pelo falecido. Dona Estela então, para complementar a renda e ajudar na educação dos filhos, passou a vender balas e doces numa barraquinha improvisada montada em frente à sua casa.

André até os doze anos ainda defecava nas calças e dona Estela sempre lhe fazia companhia, com roupas sobressalentes e desculpas junto a direção da escola em que ele estudava: “intestino solto, já está sendo tratado…” (os médicos diagnosticavam como perda precoce do pai, insegurança para enfrentar desafios, etc, etc).

Hoje os três eram adultos, tinham seus empregos, cada um deles constituiu família e compromissos muito distantes de trocas das fraldas geriátricas da mãe.

Quando tomou aquela decisão, Dona Estela ainda escreveu uma carta isentando tudo e todos de qualquer culpa. A culpa era tão somente dessa terrível doença degenerativa que a deixava quase que imóvel, transformando-a num excremento humano. Ela não estava perfumada como outrora, como sempre gostou de estar. Sentia hoje exalar de seu corpo um forte odor de fezes. Era o que sobrara de sua tão sacrificada vida. Em seus últimos movimentos conseguiu ainda abrir o frasco que alguém deixara distraidamente por sobre a mesa e ingeriu um por um, todos os comprimidos.

Dona Estela precisava morrer…