Elda Lucena, esse é o nome que por mais vezes fez bater meu coração mais forte. Foi no verão, há muito tempo, na escola Professor Venina Corrêa Torres, no bairro Califórnia, em Nova Iguaçu.
Tudo começou há sete anos na primeira série, não havia jardim nem CA. Nunca fui aluno nota dez e nem nota seis. Ficava quase sempre entre sete e nove, mas a Elda não. Nota oito ela chorava e nove ficava triste. Nunca tive uma infância ruim, em termos financeiros. Meu pai trabalhava e minha mãe vendia vários produtos de revistas diversas, por isso, sempre levava dinheiro para a escola. Quando o baleiro entrava na sala com aquele tabuleiro pendurado no pescoço, eu estava ali para comprar doces e balas pra mim e pra Elda, é claro, que do contrário, nunca levava dinheiro.
Parecia uma bobagem, mas eu sempre estava ao seu lado no recreio, na saída… Ela morava bem próximo da escola e eu a acompanhava até a sua casa e depois retornava para escola, porque eu morava longe e minha mãe me buscava. Ficamos amigos, sempre juntos. Os anos foram passando: primeiro, segundo, terceiro, quarto até o quinto ano, quando fiz prova para o IERP, Instituto de Educação Rangel Pestana. Fiquei muito triste, pois não teria mais a Elda como colega de carteira e recreios. Por anos passei em frente ao colégio na esperança de vê-la e nada, até que resolvi ir à secretaria. Fui informado que ela não estudava mais lá. Fui até sua casa e fui informado que a família havia mudado de endereço. Naquele momento senti meu coração sofrer um aperto, um sentimento diferente, mas só me restava ir embora.
Dez anos se passaram. Foi no outono, em uma festa junina no Instituto de Educação de Nova Iguaçu, na fila da maçã do amor, ela estava lá: Elda Lucena. Minhas pálpebras se arregalaram, meu coração disparou, olhei ao seu redor pra me certificar que estava só, fiquei com medo de não ser reconhecido, ou pior, ser tratado com indiferença, mas tudo ocorreu como uma fantasia. Abracei-a com um carinho acumulado de anos, estávamos no mesmo colégio por seis meses, separados por uma quadra de esportes entre dois prédios: Rangel Pestana e Instituto de Educação. Estávamos no segundo grau, iniciamos um namoro, fiquei radiante! Ela era maravilhosa, inteligente, simples e muito educada.
Quando a conheci usava rabo de cavalo, as vezes maria chiquinha, apesar de muito humilde, sempre bem penteada e uniformes limpíssimos. Depois de todos esses anos, ali está ela, quase uma mulher, me fazendo companhia. Mas não demorou muito: fui convocado pro serviço militar no ano seguinte. Estávamos completamente apaixonados, foi difícil, no dia que antecedeu minha apresentação no serviço militar ficamos juntos todo tempo, mas sequer trocamos informações de onde me apresentaria. Elda mais uma vez tinha saído da minha vida sem qualquer tipo de informação.
Saí do período de internato e logo viajei por dois anos pra fora do estado. Por um momento meu coração passou a bater no ritmo normal entre 60 e 100 BPM. Foi no inverno, começo de setembro, com a carreira militar no sangue, os estudos ficaram em segundo plano, mas vi a necessidade de fazer uma faculdade. Minha matéria mais forte era Biologia, nada mais natural do que escolher a matéria. Fui para Caxias, cidade da Baixada, e lá me foi informado que só poderia fazer inscrição no próximo verão, mas que poderia passar na secretaria e apanhar a grade do curso. De imediato, fui até a secretaria e para minha surpresa estava lá Elda Lucena. Não pude acreditar! Será destino? Dessa vez o entusiasmo foi reduzido (da parte dela, deu para notar). Perguntei como ela estava, respondeu que estava bem e de imediato apresentou sua filha de aproximadamente dez anos, que fazia o primário na instituição. Perguntei se ela trabalhava na faculdade. Com um sorriso de vencedora respondeu que sim, que dava aula para os alunos formados em Biologia. Fiquei embaraçado, me desculpei por não ter compartilhado meu endereço do quartel, ela sem qualquer embaraço falou que descobriu o quartel que eu estava e que mandou mais de cinquenta cartas, todas sem resposta. Falei que não recebi nenhuma delas. A essa altura os batimentos já passavam da normalidade, era notório que meu sentimento não tinha acabado.
Apesar de ter uma filha, Elda já era uma mulher separada, o que fez questão de dizer, estava ali mais uma oportunidade de relacionamento. Passei a frequentar a faculdade só para tê-la como companhia, até porque só no próximo ano eu realmente seria aluno da menina que vi crescer, que em vários momentos fez meu coração disparar de amor (sim, só pode ser amor) e que naquele momento estava pedindo pra amá-la novamente. Passamos o inverno e entramos na primavera na mais pura sintonia, só que agora um amor mais maduro, consciente. Uma coisa me intrigava: será que as cartas realmente foram escritas?
Vasculhei os arquivos da companhia do Exército, peguei informações com os comandantes anteriores, que disseram que os formandos militares em escolas eram proibidos de receber cartas, mas através de um requerimento na divisão de Exército seria possível reaver tais cartas.
Consegui autorização, peguei as cartas e, pasmem, uma caixa com meu nome cheia delas. Comecei a lê-las, desordenadamente, sempre amorosas, mostrando saudade, algumas tristezas e até arrependimentos. Comecei a ordenar, pois algumas não faziam sentido, tipo gravidez, nascimento e aniversário. A carta que me deixou mais atônito foi escrita dois meses depois da minha viagem. Na carta dizia: “Meu amor, estou com muitas saudades, acho que estou grávida. O que devo fazer? Me responda, estou preocupada…”
Comecei a ordenar as cartas, cada mês explicando do pré-natal, sim, ela estava grávida! E eu sem saber sequer por onde andava Elda Lucena. Da gravidez ao nascimento, do primeiro aniversário aos dez anos de vida. Só eu sabia que era pai de uma bela menina, com os olhos vermelhos de tanto chorar e pensando “e agora, como vou chegar para essa menina e falar ‘sou seu pai’ e que sua mãe é o amor da minha vida?” Tenho esse direito?
Elda Lucena sequer sabe que estou em posse das cartas e que agora sei de toda história. A primavera está indo embora, no próximo verão estaremos mais uma vez lado a lado de volta ao começo, eu e Elda Lucena, o amor da minha vida!





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