Sabe, sinto muitas saudades suas…
Saudades do choro na noite, dos soluços e das cólicas. Saudades de não saber o que fazer, de achar que a mamadeira está muito fria, que a mamadeira está muito quente. Saudades de você descobrindo suas mãos, seus dedinhos, do primeiro olhar fixo, do primeiro sorriso sem dentes…
Saudades do engatinhar, do seu balbuciar engraçado. Ah! E quando você descobriu que podia andar? Já queria sair correndo, subir no sofá, cair do sofá e chorar de frustração porque não conseguia pegar a chupeta que estava no alto…
Lembra-se do seu primeiro dia de aula no maternal? Você falou: “Tchau, mamãe!” e quem estava chorando na porta era eu! Como assim você não estava em prantos pedindo pra ir embora comigo porque estava com medo? Engraçado, quem estava com medo era eu: de você se machucar, de não comer a merenda, de sofrer bullying. Na minha época a gente sofria calado, não tinha essa coisa que não podia fazer bullying com os colegas, motivo de reuniões e projetos. Acho que sua época foi melhor que a minha nesse sentido… sempre fui a gorda da sala…
Saudades do seu sorriso desdentado quando a Fada do Dente deixava moedas embaixo do seu travesseiro em troca das novas “janelinhas” em sua boca. No primeiro dente que caiu você chorou, mas depois achava o máximo ganhar dinheirinho da tal fada.
Ah! Você se recorda quando colocou a pequena beca na sua formatura dos anos iniciais? Mal sabia que ainda teria tanto a estudar, terminar o Fundamental, o Médio e quem sabe uma faculdade. Qualquer carreira que quisesse, afinal, seria o primeiro a ter um diploma universitário na família! Gostava de animais e disse que queria cuidar dos bichinhos. Que orgulho!
Você se lembra da Aninha, a primeira menina que você falou que era sua namorada? A mãe dela achou graça. Eu também, mas confesso que fiquei divagando, achando que era melhor chamar de melhor amiguinha. Vejo essa garotada de hoje pulando tantas etapas, deixando de brincar, de conversar, de se estranhar e depois fazer as pazes. Uma geração com emoções que ficam sempre na beirada do coração e, quando elas entram, não sabem o que fazer…
Mas foi na faculdade de Veterinária que você se apaixonou pela Maria. Fiquei tão feliz por vocês! Uma boa garota, gostava de você de verdade e queria crescer junto, ralava junto contigo. Se você tivesse se apaixonado por algum rapaz, eu não teria te julgado não, sabe? Se você estivesse feliz, realizado e bem resolvido, com uma pessoa que também te amasse, eu aceitaria. O caráter não se mede pela sexualidade de alguém. E seu caráter? Acima de qualquer suspeita! Como uma mãe não ficaria feliz com isso?
Quando se casou e saiu de casa, confesso que me senti sozinha. Você já quase não parava lá, mas mesmo assim achei a casa vazia. Ainda bem que comprou uma casa perto da minha! Pequena, mas muito jeitosinha. Lembre-se: você não deve AJUDAR a Maria nas coisas da casa. Isso não existe, é machismo! Você tem que cuidar do seu lar junto com ela. Afinal, a casa é dos dois! Ah, se Deus quiser, daqui a pouco, será de três, quatro. Vou adorar ter netos! O relacionamento e a vida em si são um eterno aprendizado…
Ah, a vida!…que saudade eu tenho do que seria sua vida…
Luíza, finalmente, coloca o buquê de margaridas, que representam pureza e inocência, no pequeno túmulo de seu filho natimorto e diz:
– Semana que vem eu volto para falar das saudades que tenho do seu tempo de adolescente roqueiro…





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