beijoqueiro

Se beijar é crime, então me prenda

José Alves de Moura ouve do médico o diagnóstico: um câncer avançado. Três meses de vida, talvez menos. Recomendou fé, chá de ervas, cortar o açúcar e “despedidas cuidadosas”. Ele só ouviu a última parte.

Sai do hospital determinado. Chega em casa, pega a caneta e escreve uma lista num papelzinho. Não era uma prece, nem uma lista de bens para herança, muito menos recomendações para o seu funeral. Ele quer se despedir de três pessoas.

Taxista aposentado, liga o rádio e descobre que a primeira pessoa da lista estará num evento beneficente na Barra. Pega o carro, um táxi agora pintado de branco, e vai lá se despedir. Encosta perto do hotel e se enfia na multidão. Era um idoso obeso no meio de dezenas de adolescentes desesperados por uma foto com a Larissa Manoela. José mostra extrema habilidade para driblar a segurança, passar por trás da multidão e sair de cara com a Larissa Manoela. A agarra pelo braço e tasca um beijão na testa. Ela se assusta e logo um segurança tira José dali. No dia seguinte, uma pequena nota no jornal registra sua presença:
— Depois de muito tempo desaparecido, José Alves, o Beijoqueiro, retorna beijando a testa de estrela da Globo.

O caso viralizou. A internet se dividiu. Uns falavam em assédio, outros em meme. Lembraram de quando ele foi internado em um hospital psiquiátrico. Nunca ficou bem explicado se fora um surto ou se fora mal diagnosticado. José não ligava. Já estava em busca do próximo da sua lista. Soube que ele estaria num congresso também no Rio. Fortíssimo esquema de segurança. O ministro Alexandre de Moraes participava de um evento com influenciadores, para aproximar o STF da juventude. O Beijoqueiro, penetra experiente, colou na fila de influenciadores. Logo pescou uma conversa de que um dos influenciadores passou mal. Foi se infiltrando até não ser mais percebido. Claro, era um senhor de idade no meio de tantos jovens, mas hoje é pecado discriminar por o que quer que seja. Pula direto pra manchete de um dos portais:
– Beijoqueiro surge das cinzas e beija careca de Moraes – no subtítulo já detalhava melhor – Mesmo com beijo consentido, ação para livrar ministro das mãos do Beijoqueiro envolveu arma de choque e spray de pimenta. Ganhou também uma tornozeleira eletrônica.

Na sua idade, José teve que ser hospitalizado e começou a responder processo. Parece que 2025 não era como 1985, quando ele tomava uns tapas e tava correndo atrás de outra celebridade no dia seguinte. Já não corria com a mesma desenvoltura. Mas faltava uma última celebridade em sua lista. Mesmo ainda convalescente, o Beijoqueiro se informou e armou seu plano derradeiro. Partiu pro centro de treinamento do Flamengo, que receberia o Santos. O time da Vila iria jogar contra o Vasco e era a melhor oportunidade pro último ato do Beijoqueiro. Visado, ele teve que ser mais esperto e abordar sua vítima na saída pro ônibus. Quando viu a fila de jogadores, se atirou na direção do Neymar e veio com o bico preparado para o gran finale. Foi surpreendido por um soco, vindo de não se sabe onde, que o jogou no chão já desacordado. Só abriu os olhos no CTI.

A enfermeira o recebeu com o celular, mostrando uma figurinha do Beijoqueiro. Sorri quando ela diz que qualquer dia ele vai tomar café com a Ana Maria Braga. Antes que ela saia, pede pra dar um beijo nela em agradecimento. Ela dá a testa e recebe o beijo. 

Na prateleira, ao lado da cama, recortes de jornal com seus últimos intentos: Larissa Manoela, Alexandre de Moraes e Neymar. José Alves de Moura morre dormindo. Não sem antes descobrir que o Brasil de 2025 era menos romântico que o de 1985.