— Bonita demais! Toquei Stivi Uonde, “I Justi Calléd tu Sei Ai Love You”. Sucesso do ano de 84. Na sua, na nossa, Saudade FM. Vamos ficar juntinhos a madrugada toda.
Juntinhos, no caso, significava ele, um microfone enferrujado e três ouvintes que ainda usavam relógio de pulso com calculadora. No estúdio da rádio, cheirando a mofo, tinha um vaso com rosas de plástico desbotadas, uma luminária remendada com durex e um calendário de 2019 ainda na parede.
—Liga pra gente. Aqui você pede a música e dedica pra quem você quiser. Pode ser aquele gato da academia, aquela paquera no trabalho… Liga, liga, liga! Manda um fax pra gente. Quem lembra do barulhinho do fax já entregou a idade, hein? — Riu sozinho da própria piada, como sempre.
Enquanto falava, passava a mão nos botões do painel como quem acaricia um piano antigo. O estúdio era velho, mas Pedro Paulo se sentia em casa — ou melhor, como na sua casa nos anos 80. Ficou preso ao passado como quem cumpre um karma.
O telefone tocou. Pedro Paulo, até um pouco surpreso com a rápida resposta do telefone ao seu pedido, atendeu empolgado:
— Saudade FM, quem fala?
— Aqui é a Silvinha, de Mesquita. Pedrinho, toca uma pra mim?
— Uau! Claro, Silvinha. Aqui a gente toca o que o ouvinte pede. Qual é a música e pra quem?
— Ah, é Carilés Uisper, do Jorge Maicon. Vai pro Cesinha, que foi embora com a moça da aula de zumba. Quando a gente dançava agarradinho ele botava Carilés Uisper e me rodopiava na cozinha de casa.
— Então vamos fazer a Silvinha rodopiar mais uma vez. Cesinha, seu bandido! Larga a mocréia da zumba e volta pra Silvinha.
Pedro Paulo soltou a música e olhou para o estúdio vazio como quem olha pra um antigo salão de baile abandonado. Tocou em seguida Hello, do Lionel Richie. E na sequência o telefone tocou de novo:
— É da rádio?
— É sim, quem fala?
— É a Shirley. Lembra de mim?
Silêncio. Pedro Paulo reconheceu aquela voz. Shirley: Ex-produtora, ex-namorada e ex-futura esposa. Largou tudo quando foi trabalhar numa rádio maior em São Paulo.
— Lembro, lembro sim — ele disse — E você, ainda tá em São Paulo?
— Tô sim. Mas vim passar uns dias no Rio. E sabe onde eu tô agora?
— Onde?
— No estacionamento da rádio. Vem me buscar.
Pedro Paulo saiu correndo. Esqueceu o microfone aberto. Os ouvintes escutaram ao fundo o som da porta batendo, um tropeço, e depois silêncio. A fita continuou rodando. O gravador da rádio soltou sozinho Time After Time, da Cyndi Lauper.





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