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Rios da minha infância

O meu relacionamento com o rio da minha infância faz parte da minha vida adulta até hoje, mesmo depois de muitos anos distante dele. Lembro que, muitos anos depois, quando li pela primeira vez o poema de Fernando Pessoa “O Rio da Minha Aldeia”, a minha memória me fez viajar no tempo. O rio, com suas águas límpidas, cobria grande parte da minha cidadezinha; para mim, ele era o maior do mundo. Era um rio de histórias que deixava toda a criançada que se banhava nele curiosa e fascinada com os causos que os mais velhos contavam.

Diziam que, antigamente, havia em uma parte do rio, o Poço das Mulheres, onde elas tomavam banho com roupas sumárias e, sempre vez ou outra, punham para correr os atrevidos que se escondiam nas copas das árvores para ter uma visão melhor das mulheres que ali se deleitavam descontraidamente. Contavam também das profundas cavernas, onde habitavam seres que não eram deste mundo, principalmente a Mãe d’Água que, com os seus encantos, atraía os mais incautos para a profundeza do rio. As crianças eram proibidas pelos pais de se aproximarem desses locais, receosos de que o pior acontecesse. Mas foi nas suas águas que eu vivi os melhores dias da minha infância.

​Alguns anos mais tarde, já morando em Nova Iguaçu, também tive a grata surpresa de morar próximo a um rio: o Rio Botas, que passava com suas águas turvas e barrentas pelo bairro onde fui morar. Mesmo feliz com esse reencontro, nada se parecia com o pequeno rio da minha cidadezinha. Os velhos habitantes daquela localidade contavam que, antigamente, o Botas era um rio de águas claras, onde as famílias se reuniam à sua margem para fazer piqueniques, as mulheres lavavam roupas nas suas águas e os homens pescavam tilápias, pintados e tambaquis. A visita diária ao rio era um ritual sagrado.

O rio que eu conheci era muito diferente do que os velhos descreviam. As águas agora estavam pesadas e sujas, carregando velhos segredos ocultos no lodaçal degradante. A primeira surpresa que tive — e que me fez esquecer qualquer lembrança boa — foi quando vi uma galinha morta, com suas penas sujas e pálidas, passando ao lado de um menino que se arriscava a tomar banho nas suas águas. Era um presente indesejado que vinha de um conjunto de casas construído havia algum tempo próximo às margens do rio. Era um sinal, um pressentimento de más notícias futuras.

​Lembro-me de que nas suas margens, onde hoje existe um CIEP, existia uma olaria abandonada. Naquela época, os tijolos descartados eram a grande diversão das crianças, que brincavam de empilhá-los à moda de um Lego, onde erguiam casas imaginárias que muitos nem tinham na vida real. O local fechou depois da morte trágica de um trabalhador, soterrado por uma pilha de sua própria matéria-prima. A olaria ganhou má fama de mal-assombrada, depois que um grupo de crianças disse ter visto o fantasma do trabalhador morto rondando o local. Com o tempo, o vazio foi ocupado pelo silêncio pesado dos viciados, que ali por muitos anos se refugiaram para se drogar livremente.

​O rio que um dia foi morada de diversos tipos de peixes reluzentes passou a ter uma fauna diferente de habitantes: colchões velhos, sofás desnudos mostrando suas molas como se fossem costelas e, o que era pior, o sombrio bailado de corpos em zigue-zague, resultado da desova macabra dos justiceiros locais.

​Hoje, a triste realidade do rio é deprimente. A falta de moradia fez com que as pessoas construíssem casas sobre o rio. Casas de alvenaria e até palafitas de madeira e papelão são muito comuns de se ver por sua extensão.

Mas, no meio de tudo isso, ainda se encontra algo de positivo: a correria e o sorriso da criançada que estuda no CIEP localizado no terreno da antiga olaria. O desconhecimento da história do rio aumenta ainda mais a tragédia em que ele se tornou, mas a inocência e a alegria das crianças não deixam que elas se abalem com isso.

Mesmo com todas as coisas negativas — a galinha morta, o sombrio balé de corpos e colchões — a minha relação de afeto com o Botas nunca vai deixar de existir porque, mesmo nas suas águas barrentas, tive muitos momentos de alegria e divertimento com a garotada da minha geração. E sempre lembrarei que um dia ele também foi igual ao rio da minha cidadezinha, assim como o rio da aldeia do poeta português.