Idoso fone de ouvido

Onde anda você?

“E por falar em saudade, onde anda você?”

Gervásio ouvia essa música repetidamente em seu dispositivo eletrônico. Aliás, andava com saudades dos rádios, vitrolas e aparelhos de fita cassete que tinha em sua antiga casa. Agora, tudo funciona por bluetooth, comando de voz e outros tais que ele se esforça para usar.

Ele se considera quase um Highlander do alto de seus 88 anos, pois já viu, viveu e sobreviveu a tanta coisa: casamentos, descasamentos, nascimentos, mortes, moléstias, curas, tanta coisa… 

Agora, sua mente anda um tanto embaralhada. Confunde um pouco o passado com o presente. Às vezes, tem a sensação de estar em um sonho do qual, de repente, acorda. E quando isso acontece, coloca em seu dispositivo a música que o conduz  de volta de suas viagens/sonhos, traduzindo o sentimento que lhe consome todos os dias: “Você bem que podia me aparecer, nesses mesmos lugares, nas noites, nos bares, onde anda você?”

Gervázio se pergunta onde ele está, em que momento deixou de ser o homem alegre e forte que sempre fora. Ele bem que podia me aparecer, ele pensa. O que Gervázio não sabe é que ele está ali, basta a cortina da saudade ser aberta para ele voltar.