O velório já durava algumas horas, mas permanecia vazio. O funcionário do cemitério olhava insistentemente para o relógio, na esperança de finalmente dar por encerrado aquele enfadonho final de tarde. Estava claro que o homem não possuía amigos ou família numerosa que ainda fosse chegar para a despedida.
Três colegas de repartição se entreolhavam, mantendo o distanciamento e o silêncio. Não havia nada que justificasse um infarto fulminante às vésperas dos cinquenta anos. As dúvidas pairavam sobre a capela assim como as aves negras que a sobrevoavam sem pressa. Os olhares negavam de forma contundente um possível envolvimento com qualquer conflito que pudesse ter causado tamanho desgaste ou aborrecimento ao defunto.
A negação gritava. O compadecimento também. O silêncio foi quebrado pelo colega mais novo:
— Amanhã quem abre o escritório?
— Eu abro e você fica para o encerramento do expediente — respondeu o companheiro.
Novo silêncio. Todos já se preparavam para o sepultamento de José quando novamente a tentativa de conversa foi retomada:
— Poxa, o almoço pro dia do aniversário dele já estava reservado.
— E parte da bebida também.
— Olhe, deixe eu te falar …
— Hum.
— Não podemos fazer troca de horário? Não quero encerrar o expediente sozinho. Prometo que abro o escritório na hora certa.
— De novo essa história de medo? Os mortos não fazem mal nenhum. É mais sensato ter medo dos vivos.
José finalmente descia à sepultura. Os poucos participantes do indesejado evento estavam consternados e de mãos dadas com a desconfiança.
No dia seguinte, na troca de turno, o colega assumiu o segundo turno do dia ainda a contragosto e incomodado. Bastaram os primeiros trinta minutos para que a porta da sala batesse sozinha. Logo em seguida, o teclado de um computador sem uso começou a emitir ruídos. O homem então foi ao banheiro lavar o rosto e se recompor. Quando pensou já estar sossegado e tranquilo, um vulto negro e quase disforme lhe saudou do outro lado da porta. O pavor foi tanto que na mesma hora ele tombou atrás da mesa.
Recebeu atendimento médico ali mesmo no local. Infarto, tal como o colega sepultado no dia anterior.
O rapaz que havia lhe negado a troca do horário do turno, ao chegar, desesperado e se sentindo culpadíssimo, não entendeu nada, até ouvir uma risada que vinha do banheiro. O banheiro estava vazio. Temerário, foi em busca do som, que ia ficando cada vez mais evidente. Descobriu da pior forma que o “criminoso” e responsável pelos incidentes com os colegas era um ser que estava entre morto e assombrado, vivo e alma sem rumo. A culpa passou no momento em que uma figura macabra também passava diante da porta. Escritório fechado. Não havia mais discussões a respeito do horário. Somente uma voz solitária ecoando e ecoando pela sala vazia.





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