circo picadeiro

O universo psico emblemático de Otelo, o tolo

Não gostava de receber visitas, porém elas insistiam em aparecer, e sem avisar. Se achegavam sem cerimônias, simplesmente iam se aboletando aonde melhor lhes conviesse. Não raro era o seu despertar, com dúzias deles dormitando ou perambulando a esmo em busca de suprimentos para seus egos inflados. Ele os via por todos os cantos e até dependurados em seu armário embutido; às vezes uns o abraçavam ternamente como filhos ingratos retornando ao ninho após frustradas resenhas ao deus-dará. Nunca os teve de fato, os filhos, talvez se os tivesse, ao menos um, provavelmente haveria de suportá-lo. Eram tantos. Eram tantos que já não os reconhecia; já não os contava e os confundia uns com outros. Cumprimentava um João que seria Zé; ou Escolástico por Pancrácio; Maria por Marta. É que no fim das contas, todos juntos pareciam iguais. Mas, que fossem Joãos e Zés; Marias e Anas… A rotina dele poderia muito bem ser comparada com a de um circo mambembe sempre refém de gatos pingados.  

Ainda bem que, de vez em quando, eles sumiam e, nesses momentos de silêncio e calmaria, a sua vida até parecia uma maravilha. Era só ele e os seus próprios reflexos perpassando pelos cômodos quando, pelo menos assim, podia se sentir sendo ele mesmo e fazer o que bem quisesse. Mas, a cada vez esses momentos foram se tornando raros e a coisa perdurando daquela forma, quem suportaria? Haveria algum limite? Ele bem que suportou mais tempo do que o recomendável porém, com o tempo, foi perdendo o viço durante os hiatos comuns e fora se resignando ao sono, ainda que agitado e reticente. Tudo parecia desandar ao vir se aproximando o sinal da chegada deles, quando já lhe batia uma certa larica quanto a tropa vindoura à noitinha. Assim foram passando os tempos e as visitas e, na mesma proporção, a sua agonia aumentando, tanto e de tão insuportável que, num belo dia resolvera chutar o balde… deu-se a sanha, expulsando todos de uma só vez de sua cabeça, chamando-lhes Joãos; Zés, Marias, Escolástico pra cá, Pancrácio pra lá, aos tapas e empurrões… E foram se indo todos e do jeito que estavam, vestidos uns, nus outros. Foram-se todos, juntando as suas coisas espalhadas ao léu, como de hábito e, à medida que seguiam rumo à porta da rua, resmungavam vocábulos inauditos e muxoxos raivosos. Aquela foi uma verdadeira romaria de imigrantes saindo da sua casa e cada qual carregando a sua própria trouxa molambenta…

Ao ver, enfim, o último conviva dobrar a esquina, sentira uma paz infinita e, ao mesmo tempo, uma vontade de chorar como arrependimento por fazer valer aquela máxima metafísica da autossabotagem, purgando as culpas e meia-culpas pelo conceito do perdão divinal; como na parábola de Jonas e a baleia onde a solidão impõe a compreensão do máximo pelo mínimo, ou na melhor das metáforas circenses, quando menos é mais; e aquelas personas figurantes, Escolásticos e Pancrácios que fossem, são os mesmos que, ás vezes, se transmutam em outras personagens, ora um é o palhaço, ora outro um mágico; ou do engolidor de fogo se passar pela mulher-barbada; noutras tantas é o próprio dono do circo que se perfaz espectador.

Então, se num final de semana qualquer ou num único dia lindo pudesse juntar toda a trupe de uma vez? Deverá ser como num dia de churrasco em família, com todos chegando bem e nem sequer precisem se apresentar por nomes e sobrenomes. Quando tudo parecerá maravilhoso, pois são todos pescadores e, também, peixes. E de tão simples viver assim no trapézio, é só estender embaixo a grande rede de proteção.