O calor do primeiro dia de janeiro estava tão forte que Valdemar Pinto quase fritou um ovo na testa. Sentado na sala, suava em bicas, abanando-se com o bilhete da Mega-Sena da Virada, sua última, derradeira, desesperada esperança de finalmente ficar rico sem precisar trabalhar. Mas, claro, não deu em nada. Num acesso de revolta, gritou a esmo: “Eu faria qualquer coisa para ter uma boa vida!” Nem pensou no peso da frase. Achou que ninguém estava ouvindo. Ledo engano.
De repente, um cheiro de enxofre doce, meio queimado, meio “perfume importado duvidoso”, se espalhou pela sala. Quando virou, viu um sujeito de terno impecável, sapatos tão brilhantes que davam reflexo e um sorriso de quem já enganou muito mais gente que ele. O indivíduo abanava um leque feito de notas de mil dólares, como quem ostenta sem pudor:
— Chamou? — perguntou, com voz de vendedor em fim de mês.
Valdemar engoliu seco. Seria o Diabo? Só podia ser ele. O intruso se sentou no sofá como se fosse dono da casa e começou a reclamar: do calor, do preço do combustível, da moda das almas minimalistas, das metas infernais para bater. Entre um resmungo e outro, abriu a maleta: riqueza imediata, fama moderada, sucesso garantido e um carro que parecia ter saído de um comercial:
—Só assinar aqui — disse o Diabo, estendendo um contrato com letras tão pequenas que pareciam impressas por formigas treinadas. Valdemar nem pensou, assinou, sorrindo como quem finalmente acertou os seis números.
E, de fato, parecia que tinha ganhado. Na manhã seguinte, acordou numa cobertura chique que não lembrava de ter comprado e com um carrão na garagem. O extrato bancário tinha mais zeros do que ele sabia contar. Era a vida perfeita. Até a chegada do primeiro envelope. Um boleto magrinho, valor baixo, educado, quase simpático: “Taxa de Entrada no Mundo dos Favoráveis.” Achou engraçado, pagou sem pensar.
Na semana seguinte, chegaram três boletos: “Contribuição para o Fundo de Ambição”, “Tarifa de Desejos Ilimitados”, “Juros da Vaidade Acumulada.” Todos com vencimento para o dia seguinte.
Na terceira semana, já eram sete boletos. Um deles dizia simplesmente: “Custo Operacional de Manutenção dos seus Sonhos.” O valor era tão alto que ele suspeitou que o banco fosse sócio do Diabo. Tentou falar com o Diabo. Mandou mensagem no WhatsApp, mas apareceu um único “tick”. Ligou. Caiu num atendimento automático que repetia: “Sua alma é muito importante para nós, não desligue, continue na linha.”
Os boletos começaram a se multiplicar como praga. Um apareceu colado no espelho do banheiro, com fita vermelha brilhante. Outro foi entregue por um corvo que soltou uma risadinha maléfica antes de voar.
Valdemar já não dormia. Os olhos fundos, o cabelo caindo, a conta bancária diminuindo. Até que, numa sexta-feira, recebeu o maior de todos: um boleto descomunal, com a descrição: “Custo Total da Ambição Ilimitada.”
O valor era tão escandaloso que ele precisou se sentar. Olhou em volta para a pilha de boletos, o luxo que já não parecia tão belo e a vida se tornou um verdadeiro inferno.
Respirou fundo e concluiu, exausto, derrotado, quase resignado:
“Definitivamente, boleto não é coisa de Deus.”





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