igreja evangélica

No princípio era o verbo

O pastor Josafá sempre foi um homem de fé, mas estudar nunca foi o seu forte. Sabe aquele crente empolgado que se torna um pastor aos trancos e barrancos? Quando menos perceberam, o pedreiro Josafá já estava à frente da Igreja Pentecostal Fogo no Peito, levando cada vírgula da Bíblia ao pé da letra. E foi aí que começou o problema.

Num domingo de culto lotado, com os ventiladores de teto fazendo mais barulho do que vento, lá está no banco da frente o diácono Elias, que sua em bicas perto do púlpito. Sua esposa, a varoa Celeste, está ao seu lado com seu vestido justo e estampado acompanhando cada palavra pregada com fervor pelo pastor Josafá:
– “…ama uma mulher, amada do seu amigo, e adulteraaaa!” Tá aqui na palavra de Deus. Ele mandou pegar a mulher do seu amigo e adulteraaaaar. Amém, igreja?
– Amém! – Disse toda a igreja.

Nesse momento, o diácono Elias engasga com a bala de hortelã e a irmã Celeste arregala os olhos como quem acabou de receber uma revelação. O pastor fala tudo isso com os olhos vidrados em Celeste:
– Irmãos, é uma ordem divina! – reforça o pastor, com os olhos em chamas – Deus me mandou adulteraaaar!

Ali mesmo acabou o culto e a fofoca começa. Irmã Creuza cutuca o marido:
– Eu sabia que esse homem ia cair em tentação! Desde que colocou aquele topete com gel, tá diferente…

O diácono Elias corre até o pastor tentando conter a crise e fala ao pé do ouvido:
– Pastor, eu acho que…
– Não acha nada, Elias! Está na Bíblia! Quem sou eu para desobedecer ao Senhor?

A congregação entra em pânico. O irmão Josimar, sempre discreto, pega a esposa pelo braço:
– Eu hein… vai que ele resolve me incluir nessa revelação? Vamos embora!

O culto termina sem despedidas. O pastor chama a irmã Celeste para uma conversa particular em seu gabinete pastoral. Seu marido, Elias, fica de fora. O comentário geral foi que o encontro demorou um pouco além do necessário.

Nos dias que se seguiram, o assunto correu solto na cidade. Alguns fiéis acreditavam que Josafá tinha mesmo recebido uma revelação especial, enquanto outros já se perguntavam se não era melhor procurar outra igreja. A história rodou tanto, mas tanto, que foi parar na TV local, uma afiliada de uma grande TV nacional. Um repórter procurou pelo pastor e o achou em casa. Mesmo sendo pedreiro, sua casa ainda tinha partes só no tijolo, sem o reboco. Ele recebe o repórter na varanda. O pastor já se senta tenso e começa a responder:
– Foi a decisão mais difícil da minha vida. Adulterar uma varoa, sendo eu casado e ela também, exigiu muita oração.

Mas não demora para chegar a grande pergunta:
– Pastor Josafá, o que está escrito no versículo não é adúltera? Tem um acento aqui. Não houve um erro?
– Deixa eu ver. Ah, tá. Foi bom o senhor mexer nisso aqui, porque uma coisa chama a outra…

Josafá tenta disfarçar, mas não sabe onde enfiar a cara. A matéria foi ao ar e no dia seguinte a igreja estava com metade da lotação. Alguns varões se entreolham, algumas varoas vieram mais arrumadas que o normal. O casal Elias e Celeste mudou de cidade. Dizem até que mudaram de religião, só por precaução. Já o pastor Josafá comprou uma bíblia com a letra grande e só anda com o dicionário do lado. Toda vez que aparece uma dúvida teológica, a primeira pergunta que ele faz é:

– E tem acento?