No meio do caminho

homem camisa vermelha corcunda

A caminhada era costumeira. Todo o final de tarde o casal fazia o trajeto de ao menos quarenta minutos pelo Parque do Gericinó. Quando o cansaço falava mais alto devido a um dia de trabalho mais puxado, os dois se permitiam ir para a cama mais cedo e retomar a rotina de cuidados com o corpo somente no dia seguinte.

Na segunda-feira, haviam justamente se entregado ao prazer dos lençóis limpos e convidativos. Na terça, não havia desculpa.  No retorno da caminhada, quando o sol avermelhado dava os últimos sorrisos, perceberam então que um homem alto e esquálido jazia ao lado de uma árvore qualquer. O movimento dos frequentadores do local já diminuíra bastante, e apesar dos apelos da mulher para que parassem e oferecessem ajuda, o homem achou melhor seguirem diretamente para casa evitando ficarem expostos também, já que não sabiam o que tinha acontecido. 

Na quarta-feira, saíram para a caminhada no mesmo horário, e não repararam nada de diferente ao longo do caminho, exceto na volta, quando novamente o mesmo homem, caído de costas, exibia sua estranheza no mesmo local. Os dois assustaram-se muito. Ninguém tinha reparado ou socorrido aquele homem desde o dia anterior? A noite era densa e caía depressa, um frio lhes arrepiou o corpo. Então, foram embora intrigados. Aquela noite, dormiram mal, como se todos soubessem de alguma coisa, alguma informação negada só aos dois. 

Na quinta-feira, pensaram mudar o trajeto ou em caminhar em outro local, mas a curiosidade falou mais alto e em tom impossível de ignorar. Passaram exatamente no mesmo lugar, como nos dias anteriores, e como ocorrido no início da semana, tudo se deu normalmente na ida. Na volta, ela já apertava a mão do companheiro, ofegante e incomodada com o que poderiam encontrar. Felizmente, dessa vez não havia nada. Aliviados, saíram próximo à Rua Coronel França Leite e tão logo a noite caiu, repararam que aquela figura esquálida, sem cor e sem expressão, caminhava há poucos metros evidenciando sua corcunda sob uma camisa vermelha e surrada.

O susto foi imenso. Tanto que em poucos minutos entraram em casa, sem entender principalmente como ninguém havia se dado conta de um morto há dois dias que não estava mais morto.

Na sexta-feira o casal, que trabalhava no mesmo local, não compareceu nem ao trabalho e nem ao Gericinó para a caminhada de final de tarde. A casa permaneceu fechada mesmo após o avançar da manhã. Com o passar das horas, a vizinhança, estranhando a ausência dos jovens, decidiu chamar a polícia. Os agentes constataram a morte do casal, que misteriosamente ainda estava na cama, os dois, tal como se deitaram na noite anterior. A casa, sem sinal de arrombamento e nenhum objeto de valor roubado. Nos corpos, nenhuma marca de agressão ou coisa parecida.

Enquanto os policiais pediam o auxílio do serviço móvel de saúde, os vizinhos, assustados, lamentavam incrédulos o ocorrido. Somente o homem esquálido permanecia imóvel, observando com sua surrada camisa vermelha e sua corcunda bizarra, de cabeça baixa, sorrindo baixinho e esperando a noite cair, na esquina da Rua Coronel França Leite.