músico artista de rua

Meu anjo, Daniel

Houve um tempo em que meu coração era refém do desamor. Lágrimas e frio haviam tomado o lugar de um sentimento que, um dia, era tão caloroso. Mas, a vida e suas surpresas! Era um dia de verão abrasador, daqueles em que o canto das cigarras domina o ar. Estava sentada em um banco na Praça da Liberdade, no centro de Nova Iguaçu, saboreando um sorvete de baunilha enquanto esperava, impaciente, que a fila na Caixa Econômica Federal diminuísse. Foi então que uma figura sorridente e expansiva apareceu de repente, carregando um violão e uma pequena caixa de som. Eu mal podia acreditar que aquele homem realmente se posicionaria no meio de um calor de quase quarenta graus para tocar um instrumento. Meu corpo estava encharcado de suor, minha paciência esgotada pela longa espera. Ainda assim, meu interesse foi capturado por aquela cena aparentemente insana. Ele ajeitava seus equipamentos com calma, testava o som e mesmo no calor escaldante não perdia o sorriso. Usava uma bermuda bege, uma camisa levemente aberta que revelava um cordão fino em seu peito — um detalhe que só acrescentava ao seu charme. E então ele começou a cantar. Que voz era aquela! E aquele sorriso? De onde veio alguém tão fascinante? De repente, o calor não parecia mais tão opressivo e os rostos antes impacientes da fila da Caixa agora se viravam para assistir àquele espetáculo. Tudo ali tomava outra forma, outra energia. Como poderia uma pessoa irradiar tamanha alegria e contagiar tantos ao seu redor?

Eu observava atentamente, sorrindo sem perceber. Foi então que ele encontrou meu olhar e piscou. A praça parecia ainda mais iluminada, como se tivesse sido engolida por um momento mágico. Ao som de sua música, até os artesãos que estavam por ali começaram a dançar e cantar. Ele tocou várias canções com uma leveza impressionante, enquanto o calor fazia seus cabelos grudarem na testa. Durante uma pausa, ele deixou tocar “Cry To Me” de Solomon Burke em sua caixa de som e nos chamou à interação: pediu que dançássemos. Caminhou até mim e estendeu a mão. No início, recusei — talvez por timidez ou pelo simples desconforto da situação. Mas ele insistiu, com aquele sorriso irresistível. A multidão ao redor começou a incentivar e eu, sem graça, acabei aceitando. A verdade é que foi maravilhoso. Senti o perfume suave que ele exalava e a atenção nos detalhes ao me conduzir pela música. Era como se o calor e o movimento ao nosso redor desaparecessem naquele instante. As pessoas passavam por ali curiosas com a cena inusitada. E eu pensava: como o acaso consegue transformar um dia tão comum em algo tão especial? Para mim, ele foi mais do que apenas um momento na praça; ele foi uma luz, uma alegria inesperada, uma essência vibrante da vida que escolheu cruzar meu caminho. Foi como se tivesse sido enviado para me lembrar de que a vida não para — ela sempre encontra uma forma de nos surpreender e renovar.

Como veio, ele também partiu. Tivemos um relacionamento breve, porém intenso.  Hoje sei que esse anjo habita entre as estrelas. Guardo em meu coração sua alegria contagiante e seu sorriso inesquecível. Ele será eternamente meu amor e minha memória mais bonita, gravada para sempre como prova do quanto a vida pode ser extraordinária quando menos esperamos.