“Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão”
Todas as manhãs, o menino ouvia a mesma canção quando passava pela casa de seu Francisco. Ele era pequeno para compreender. Estava ainda se familiarizando com os números e as palavras que muitas vezes se misturavam na sua cabeça. Mas estudar era uma precisão, dizia seu pai. “Um dia, meu filho, você vai inté fazer conta de somar e diminuir, vai escrevê seu nome e tudo mais que quiser.” Esse era o sonho do pai de Toninho: ver o filho deixar a lida na roça e estudar na capital. Era também o sonho do menino.
A terra seca, as panelas quase vazias, a lágrima deitada no rosto da mãe. Eram cenas que Toninho assistia num silêncio que doía por dentro. Ele foi crescendo e foi costurando os sentidos daquelas palavras que soavam na vitrola. Os dois irmãos mais velhos já tinham se mudado pra capital. Certa vez enviaram notícias: “O trabalho é muito, o dinheiro é pouco, mas nós tem o que comê.” Toninho sonhava bem mais que isso.
“Há um passado no meu presente, o sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão
E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor”
Ele cresceu, virou rapaz letrado. Estava pronto para partir. Despediu-se do pai e da mãe com um abraço longo e sofrido. Era a primeira distância que enfrentaria. Foi se despedir da professora que muitas vezes lhe deu de comer da própria marmita. Eles acreditavam no mesmo sonho…
“Pois não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver
E não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal”
As aflições da vida fizeram Toninho compreender bem a canção que Francisco escutava todos os dias. Tudo fazia sentido agora. O abraço no amigo foi demorado. Sem palavras, apenas sorrisos. Seu coração de estudante, aberto para a nova jornada. Na pequena mala que carregava, o disco que ele tantas vezes ouviu soar na vitrola e um bilhete do amigo Chico: “Toninho, coisa que precisamos na vida é lidar com a impermanência das coisas. Então, quando a saudade bater…”
“Toda vez que o adulto fraqueja ele vem pra me dar a mão”





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