O dia estava chegando ao fim e Sara ainda não tinha terminado a revisão do livro em que estava trabalhando. Resolveu parar assim mesmo e se preparar para a comemoração do aniversário da amiga Tânia. O lugar era perto mas, com o ânimo em que estava e sem vontade de sair (ainda mais para uma festa), ela sabia que ia demorar mais que o normal pra chegar ao evento.
Desligou o notebook calmamente e brincou com a gatinha que estava na cadeira ao lado, uma linda gata sialata (mistura de siamês com vira-latas) de enormes olhos azuis e uma pelagem de fazer inveja a qualquer gato, tamanho seu zelo com a bichana. E não poderia ser diferente. Regina, a gata, era a única que convivia com ela 24 horas! Afinal, desde que seus pais haviam partido, em decorrência de um acidente de carro, deixando apenas ela e a irmã (que morava em outra cidade), ela ficara mais reclusa e cuidar da gata que era de seus pais era uma terapia para o coração.
Levantou e olhou-se no espelho gigante que ficava na parede em frente…
Reconhecia-se um mulherão da “porra”, como as amigas diziam. Os cabelos ruivos até a metade das costas, cintura fina (as amigas diziam também que ela tinha tirado duas costelas pra ser tão curvilínea. quanta bobagem!), as pernas longas e bem torneadas, seios fartos e firmes e um rosto de anjo com um olhar de safada… Era o que diziam… Mas ela só via a tristeza e vazio dentro de si. Até o namorado tinha desistido dela. Ricardo deixou um bilhete na caixa de correio depois de uma semana tentando falar com ela sem sucesso algum. Foi melhor assim…
Caminhou para a suíte para tomar um banho, mas ao olhar a cama não resistiu e decidiu deitar dez minutos, só dez minutos!
Ao longe um despertador tocou, Sara acordou, caminhou até o banheiro e ao se olhar no espelho teve uma surpresa: seus cabelos estavam grisalhos, sua pele tinha algumas rugas e não havia mais o viço da juventude. O que estava acontecendo?
Correu para a sala, a cadeira de Regininha estava vazia, sobre a mesa que sempre trabalhou, uma foto dela, junto com a de seus pais. Olhou ao redor, tudo estava diferente. Onde estavam os tapetes? Por quê as cortinas estavam gastas? Sentiu um pontada no joelho, olhou-o e se espantou: aquele joelho era seu? Como assim? Como o tempo passou e ela não viu???
Onde estariam as amigas? Pegou o celular (ainda era o mesmo! Que bom) e ligou para Tânia. Atendeu um homem que disse não conhecer nenhuma Tânia. Como assim?
Ligou para Adriana (outra amiga) e dessa vez uma voz simpática, de mulher, lhe responde:
– Oi, Tia Sara. É a Clara. Tudo bem com a senhora? Minha mãe hoje não acordou bem. Cismou que tem que voltar para casa dela, esqueceu de novo que a casa dela é aqui. Falou que vai te esperar para ir embora! Ah, tia, o Alzheimer é tão cruel. A senhora tá bem? Tá se cuidando?
Do outro lado da linha uma Sara estarrecida… Era a caçula das amigas, mas a diferença de idade nem era tão grande. Como assim? Adriana tinha Alzheimer? E a Clara era uma criança outro dia! Como o tempo tinha passado e ela não viu???
Perguntou se ela tinha notícias da Tânia, e depois de um silêncio que pareceu durar minutos, ela respondeu lentamente:
– Tia, a tia Tânia morreu tem seis meses… Lembra? Ela estava com o namorado numa pousada e infartou enquanto brincavam… Tia, a senhora tá estranha… Tá tudo bem mesmo? Ainda bem que a senhora tem a sua sobrinha Cláudia, senão eu ia te trazer pra cá! Já foi ao geriatra?
Do outro lado da linha, Sara estava estática. Despediu-se de Clara e resolveu deitar de novo. De repente estava tão cansada e cheia de dores na coluna, os pés pesados, a mente confusa…
Trimmmm trimm. Sara acordou de novo… Sentou-se na cama e olhou à volta. Tudo parecia como sempre… Puxou a ponta do cabelo e viu que era ruiva, totalmente ruiva! Levantou-se de um salto para a frente do espelho, era melhor conferir: AAAAHHHH, PQP! Ela era ela de novo!!
Gostosa, linda, bunda e peito empinado!
Foi só um sonho!!!
Pegou o celular e viu que estava atrasada quarenta minutos, correu para o banheiro, já pensando no vestido que ia usar (um vermelho bem decotado, que evidenciava seus atributos e sua beleza). Mentalmente ia fazendo a lista de tudo que ia mudar em sua vida a partir daquele dia:
1 – Entrar para uma academia.
2 – Arrumar outro namorado (de preferência um que não desistisse dela).
3 – Sair mais com as amigas.
4 – Fazer palavras cruzadas (tinha lido que retardava o Alzheimer!)
5 – Assistir peças e concertos que gostasse!
Enfim, ela ia viver! E viver bem para que quando a terceira idade chegasse ela continuasse vivendo melhor e bem!!!
Pensou nos pais que ao chegar à dita melhor idade passaram a se divertir e sair mais. Estavam aposentados e curtiam intensamente a vida e um ao outro.
Ela não ia esperar a terceira idade chegar, ela ia encontrá-la na melhor forma possível, feliz e plena!
Aliás, uma das próximas coisas que faria seria entrar em contato com o amigo Medina, que sempre a convidava para um grupo que escrevia contos e que um dos membros (que havia chegado a esse grupo já com tenra idade) até seresta organizava, além de karaokê (que ela amava) e escrevia sobre sua história de vida. Definitivamente, a terceira idade iria encontrá-la cheia de memórias, escritas, faladas… Vividas.

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