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Entre tapas e boletos

Há dois anos, aquele encontro tinha se tornado sagrado. Toda última sexta-feira do mês, os amigos se reuniam no botequim do Seu Alberico para a inusitada troca de boletos. Os cinco amigos se reuniam e entre uma cerveja, um tapa e um boleto, conversavam. Quem assistia de longe o escarcéu não conseguia entender a razão de fazerem aquilo.

Seu Alberico, espanhol de Sevilha, ficava contrariado com aquele troca-troca de boletos e resmungava:
— Por que é que cada qual não paga a sua própria conta? “Q
ué rayos”, eles têm de trocar esses boletos todos os meses? Parecem uns loucos!

Mas os amigos, entre uma cerveja e outra, conversavam de tudo um pouco. Coisas triviais do dia a dia; os gols do último campeonato, os índices da inflação, a crise climática, e claro, suas próprias mazelas. A sogra que ficou viúva e mudou-se pra casa do genro; o filho que arrumou uma namorada e largou a faculdade; a esposa com mania de limpeza e queria passar álcool no pau do marido antes de transarem; o sócio que desviou dinheiro da empresa que estava prestes a falir; a filha que engravidou do professor de Matemática…Eram muitas histórias de vida e demasiadas preocupações para expurgar. 

Mês a mês, colocavam na mesa os seus boletos e suas histórias. Discutiam, reclamavam, xingavam e, por fim, escolhiam um boleto do outro para pagar. Era mesmo uma cena bizarra. Pagar uma conta que não é sua era também uma forma de aliviar o peso da responsabilidade e conhecer o hábito alheio.

O que faziam, na verdade, era uma boa terapia em grupo. Bem mais que, simplesmente, pagar as contas uns dos outros, os amigos se aconselhavam. Na mesa do botequim, falavam e ouviam. Choravam e riam. Comiam e bebiam. Entre croquetas, tortilhas e cervejas, exerciam com lealdade a sensível arte da amizade.  

Pra cabeça do Seu Alberico, já estava demais! Foi quando ele decidiu dar um basta naquela balbúrdia. No final do mês, quando os amigos sentaram-se à mesa, o espanhol lhes trouxe mais boletos e disse frontalmente:
— A partir de agora, vocês pagam minhas contas ou rua.

Eles se entreolharam surpresos, mas entenderam o recado e dividiram os boletos entre si. Mas qual não foi o espanto quando Nelson viu um dos boletos: Motel Só Love, parcela 1 de 12. Em uníssono, caíram na gargalhada.

Nelson, carioca raiz, super sacana, não resistiu e perguntou:
— O senhor recomenda o Só Love?

Mais triste que envergonhado, Seu Alberico sentou-se ao lado dos cinco amigos e abriu o coração:
— Eu fugi da minha Espanha porque fui abandonado no altar. Nunca mais tive uma namorada. Fazia gosto em tê-la. Sinto-me solitário. A vida se arrasta.

Os amigos, dessa vez, se entreolharam com ar de cumplicidade e resolveram solucionar dois problemas. No encontro seguinte, levaram a Senhora Mercedes, a sogra que tinha ficado viúva. Para surpresa de todos, e mais ainda de Seu Alberico, era a sua ex-noiva. Se era mesmo o destino, como saber? 

Graças aos amigos, o motel já estava pago!