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Encontros sem ponto final

Naquela época, no final dos anos 70, eu morava em Belford Roxo. Era uma época em que as pessoas tinham telefone fixo em casa, daqueles que você discava pra ligar pra alguém. Poucos tinham telefone, na verdade. Os de Belford Roxo começavam com 761. Os de Nova Iguaçu eram 767 e os de Nilópolis 791. Foi de onde uma menina me ligou. As pessoas costumavam ligar pra um prefixo, seguido de um número qualquer e simplesmente puxavam assunto. Ela era adolescente como eu. O papo foi bom e marcamos de nos encontrar em Nova Iguaçu, meio do caminho pros dois, bem na rodoviária, que ficava no começo do calçadão. Rubiana o nome dela. Disse que estaria lá de vestido rosa e eu de camiseta verde. Saí do curso de inglês e passei lá, pouco depois do horário combinado. Nada da moça de vestido rosa, mas eu já não confiava mesmo que ela estaria lá.

Já nos anos oitenta comecei a andar com o pessoal da poesia. Os encontros aconteciam nos bares da cidade e quase sempre terminavam no bar do Pelé, que ficava na rodoviária de Nova Iguaçu. Aquela mesma rodoviária. Só terminava lá porque era o bar que não fechava nunca. Até que um dia, num grupo perto do nosso, ouvi alguém chamar por Rubiana. Nome difícil de encontrar, difícil de esquecer. Perguntei se alguém a conhecia e disseram que ela morava em Nilópolis. Morena, linda, de cabelos negros. Não pensei duas vezes: escrevi um poema sobre ela. Em meio a cervejas e guardanapos rabiscados tomei coragem e li em voz alta o que tinha escrito. Não tinha o nome dela, mas descrevia sua beleza em detalhes. Pouco depois fui lá puxar assunto com ela:
Gostou do que escrevi?
Muito bonito. A menina que você descreveu deve ter sorte.
Você é a Rubiana de Nilópolis, que uma vez marcou um encontro por telefone com um rapaz de Belford Roxo?

Nem deu tempo de responder. Chegou o namorado dela num Chevette. Ela se despediu e eu terminei a noite escrevendo esse poema a giz na porta das lojas do calçadão. Ela devia ligar pra vários rapazes e não ir lá pra encontrar com nenhum.

O tempo, esse danado, passou. O bar já não existe mais, a rodoviária não existe mais. Deram lugar a praça Rui Barbosa. Não frequentava mais os saraus de poesia. Muito tempo se passou, filhos, três casamentos que não deram certo e, já com os cabelos grisalhos, resolvi aceitar o convite do Eudes e da Kátia, um casal de livreiros que montou uma livraria chamada Ponte Literária bem na praça onde era a rodoviária. Depois de muitos anos, teria um sarau de poesia bem ali.

Encontrei alguns poetas daquele tempo. De outros encontrei só a saudade. Mas pra minha surpresa, lá estava Rubiana. Linda, com alguns fios grisalhos que a tinta não escondia. Nem puxei assunto. Com certeza ela não se lembraria de mim depois de… quarenta anos! Qual não foi a minha surpresa, e eu me surpreendo sempre, ela leu um poema em que dizia de um rapaz que ela marcou um encontro e que não teve coragem de encontrar. Anos depois viu ele num sarau como aquele e tinha um namorado. Que o admirava e que agora não tinha mais esperanças de encontrá-lo de novo. Será que ela me reconheceu? Pelo sim ou pelo não, resolvi recitar de cabeça o poema que escrevi pra ela nos anos oitenta. A descrição ainda combinava com ela.

Depois dos aplausos, resolvi ir lá falar com ela. Já tinha netos, não casou com o cara do Chevette e tinha ido sim naquele encontro dos anos setenta, mas de vestido laranja. Conversando mais um pouco descobri que ela marcava vários encontros por telefone. depois do poema fiquei na sua memória também. Era o amor perfeito, pois nunca tinha se realizado. Rimos muito. Ela me sugeriu transformar a história num conto. Fui pra casa e resolvi largar a poesia. Hoje faço contos para descrever melhor meus desencontros. E os encontros que não tem ponto final.