A ideia de cuidar do lado de dentro para mais tarde se ocupar com a fachada alicerçava a linha cognitiva de Gilvan. Aquele peão tinha alma de construtor. Comercializava materiais de construção na região, incentivava o acolhimento, o porto seguro, o ninho da plebe, o sonho da casa própria.
O terreno da Sonho de Construir fora objeto de posse. No local do lote existia uma praça pública. Gilvan invadiu a Praça da Palhada, cercou a área, molhou a mão do vereador, juramentou no cartório; passou a pagar IPTU, articulou alvará de permanência, ligou a luz e acertou o consumo de água. Registrou toda a papelada no próprio nome.
O proprietário morava no sobrado da loja de construção. Da janela, sabia da vida de quem estivesse ao alcance dos seus olhos. A observação deixava-lhe confortável de não ser tão certinho. Procurava fazer o melhor, no entanto, a educação do cabra escorregava no caráter dúbio. Aliás, a cerca do comportamento contemporâneo, ninguém parece perfeito.
Entrou no ramo da construção aos quarenta e cinco anos. Antes, catou latas, trabalhou duro como ajudante de pedreiro, conseguiu um ponto no camelódromo para negociar utilidades para o lar. Ali se levantou, nas barbas do calçadão, no centro de Nova Iguaçu. O herói proletário construiu o patrimônio quase honestamente. Um em mil consegue tal façanha, além do mais sendo órfão e criado no orfanato.
Gilvan incentivava o fim da mais-valia do aluguel, tipo um pinto abandona o ovo após ser chocado, almejando novos rumos. Abria cotidianamente às nove horas. Estendia as mercadorias na calçada: cimento para endurecer a massa, tintas coloridas, fios de cobre, etc. Vendia do piso ao telhado. Oferecia aos fregueses até escada pra subir na vida.
Mariângela era uma freguesa assídua da Sonho de Construir — convergia com o pensamento de desconstruir para construir — e enfrentava a crise de moradia munida das qualidades pessoais. Herdara do falecido padrasto, que morreu de dor de cotovelo, um terreno de dez por trinta, localizado no Bairro da Palhada, a dezoito minutos do centro de Nova Iguaçu.
A árvore genealógica de Mariângela quebrou o galho com o peso do carma da família. O padrasto jamais superou o fato da companheira tê-lo abandonado e fugido com o carpinteiro. Até hoje, o paradeiro da genitora permanece desconhecido.
Na labuta da construção civil, cada um dava o seu jeito. No entanto, causava surpresa a estratégia de Mariângela que aprendera com a mãe. Agia com perspicácia, associava interesse com prazer.
A figura cintilante da quarentona trazia pra calçada do botequim os machos da Palhada e as meninas ávidas por provar a fruta do pecado. Mariângela exibia um corpo violão, pernas roliças, lábios grossos: um espetáculo da natureza humana. Cercada de adjetivos, deixava a turma da cueca de papo pro ar… Ainda que se dissesse tímida, arrastava a asa para o proprietário da loja de material de construção.
As qualidades — bem embaladas — da perua mais sensual do Bairro da Palhada serviam de argumento para a cantada ensaiada em Gilvan. Insinuava, na cara de pau, a troca de favores por material de construção. Propunha ao comerciante barba, cabelo, bigode e carinho à vontade.
Gilvan, carente de afago, barbeado, jogado às traças, fora largado na rua da amargura, também por adultério. A ex-mulher botou-lhe um chifre do tamanho de um obelisco ao descobrir um caso extraconjugal do cafajeste.
O comerciante deixou as lamúrias pra lá, arregalou os olhos nas formas de Mariângela e topou, no ato, a proposta indecorosa. Acertou dois milheiro de tijolos, trinta sacos de cimento e três metros quadrados de brita. Feito o trato, mesmo focado na missão, arriou de paixão; o coração balançou no esqueleto, mas Mariângela tirou o corpo fora ao final do acordo.
A assanhada, de posse do material necessário, rolou na pista, passou a assediar o pedreiro Mariano Entulho. Entulho surfou na onda, organizou o alicerce da meia-água, mas também suspendeu as paredes. Comeu, bebeu e lambeu os beiços; contudo, tomou um chute no traseiro depois de concluída a etapa combinada.
O quarto, sala, cozinha e banheiro em ponto de cobertura reascendeu o sentimento de Mariângela por Gilvan. O bobão cedeu aos caprichos da carne, comprou a laje pré-moldada, posteriormente, amargou outra desilusão. A trapaceira conquistou o motorista do caminhão de concreto. O piloto deitou na sopa, curtiu as curvas do monumento, efetuou a montagem da treliça e entregou a laje pronta.
O caminhoneiro rodopiou em seguida, saiu da história sem despedida. Mariângela bandeou pro lado do patrão de novo. O lojista caiu de quatro, acreditou nas juras de amor, dormiu de conchinha no sobrado, investiu no namoro. Mariângela aproveitou a oportunidade, surrupiou a contabilidade da firma. Adquiriu, com o dinheiro desviado, 36 metros quadrados de porcelanato.
Mariângela vazou na madrugada ao som dos roncos de Gilvan. Bastante objetiva, acabou flertando com um ladrilheiro jovem, cheio de disposição. O rapaz, empolgado com o mulherão, revestiu a residência com o piso de primeira.
Gilvan acostumado a ser corno, perdoou os deslizes da amante. Juntaram as expectativas, foram morar na casa construída com o esforço dos dois. Transformou o sobrado em depósito da Sonho de Construir. Afiançou o no novo perfil da amada, bancou o término da obra, encerrou aquele caso de desconstruir para construir.
O casamento deu certo. Nasceram um pro outro, entraram na moda do “deixa disso”, esqueceram o passado. Vivem uma relação conservadora, são extremamente moralistas, refutam a vida pretérita.
Casaram-se na igreja, conforme a tradição, mantêm-se fiéis aos votos de fidelidade. Estão envoltos numa fina cumplicidade. Mariângela, agora, é uma senhora distinta, temente ao ritual, assídua no culto sagrado; veste saia na altura do joelho. Evita extravagâncias, raramente ri em público e nunca se permite cair nos comentários avulsos dos fofoqueiros de plantão.
O casal brilhou no ramo da construção civil, desenrolou lóbi forte na política municipal. Ficaram na crista da onda: fornecem material de construção para pontes, calçadas, monumentos, estradas, hospitais, escolas, etc.
Mariângela especializou-se em corrupção, dá nó em pingo d’água. Gilvan alicia a concorrência, enrola as secretárias, descola os detalhes, desliza no mar de lama dos descaminhos do poder.
Edificaram um império recheado de castelos de areia, falsas estruturas, mentiras e ilusões. Chegam perdidos de pertencimento à terceira idade, donde concluem: é preciso desconstruir para construir um mundo melhor.





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