basculante banheiro

De olho em você

Um banho morno pra arejar. Tirar a culpa. Você não foi à missa. Nem fazer o enterro dela com o pessoal da igreja você queria. Não acredita nisso. Concluiu, conversando com Alice, que não  tinha mais psicológico. Alice ajeitou os óculos grossos de seus oito graus de miopia e disse que te apoiava ficar em casa e não ir à missa de sétimo dia da sua tia falecida, a tia que te criou nesta casa desde que você era uma órfã. Embora tenha te dado força, ela avisou o morto ainda vaga pela terra durante uma semana e as preces da missa de sétimo dia servem pro espírito subir. Se os entes não fizerem as preces, a alma continua por perto. Você riu de nervoso e disse: cruzes, ainda bem que não acredito nessas coisas. Alice ficou em silêncio. 

A criação que a sua tia te deu foi cheia de surras. Ela dizia “te bato porque tô de olho em você”. Foi melhor isso que o desamparo, a solidão. Mas depois que cresceu, você contava os dias pra sua tia morrer. 

Você tranca a porta e abre o chuveiro morno. Confere o basculante que fica em cima de você no box e abre o chuveiro. Isso sim é um ritual relevante. Banho demorado, xampu, óleos, sabonete líquido. Essa ducha forte sobre as costas e os ombros. Tirar essa tensão nos músculos, porque quem está viva é você. A sensação de alívio vem e você canta “é hoje o dia / da alegria / e a tristeza nem pode pensar em…” Mas, de repente, se espanta com o basculante que abre sozinho. O basculante faz um ruído. Você diz, olhando pra cima: pode parar de brincadeira, Alice. 

Você fecha o basculante e volta ao banho. Mas já não consegue se livrar da ideia que Alice trouxe, sobre o morto vagar na terra se não receber preces. 

Você tem uma ideia. Pra esquecer essa conversa. Abrir um óleo novo. Sai do box, fecha a cortina. Agacha no armário e vasculha a gaveta, mas há sabonetes, um alicate de unha e embalagens de papel na frente. Só quando estica o braço alcança o óleo de caju. É esse. Abre e sente o cheiro. 

Delícia. Alívio. Mas, quando se vira pra voltar ao banho, a cortina está aberta. Alice? Não é Alice. 

Você trava. Pensa em não tomar banho. É a sua punição: deixar de fazer o que mais te dá prazer no mundo, que é um banho demorado e morno. Coisa que quando sua tia estava aqui você não conseguia, porque ela reclamava da conta de luz. De repente uma coragem: você dobra a aposta pra parar de bobagem: vai tomar um banho mais que morno, vai tomar um banho quente. Troca a posição do chuveiro pra inverno e a água toca suas costas, quase queimando a pele. Você volta a cantar: “Diga espelho meu / se há na avenida alguém mais feliz que eu”. 

De súbito, um clarão no chuveiro e acaba a luz. Alice? O banheiro, um breu. Alice, você desligou o disjuntor? A fiação não suportou. Agora você se agacha, como uma criança amedrontada. Consegue ver, olhando pra cima com o canto dos olhos, o exato momento em que o basculante range e se abre outra vez. Por trás dele, você avista: dois olhos brancos de olho em você. Você vai em direção à porta, mas sua mão trêmula deixa a chave cair e agora você está trancada, com a chave reserva pendurada na parede lá fora. Você quer chamar ajuda, mas o celular tá no quarto. Tateia a chave no chão e, enquanto está agachada, escuta o basculante ranger mais uma  vez. Um som se aproxima e você sente o calor do ambiente aumentando. Você se lembra do alicate na gaveta. Sua arma. Abre a gaveta e o pega, feito um cego tateando. A presença está ao seu lado, quase roçando a pele na sua. Respira no seu ouvido. Você está de olhos fechados. Você faz um pai-nosso, a única prece que sabe. Nada. É aí que é surpreendida pela porta sendo aberta e um rosto se aproximando, ataca-o com o alicate e escuta um barulho  de vidro se quebrando. São óculos. Agora sim, de Alice, que ficou preocupada porque você não atendia a ligação e veio ver como estava. 

Você pede desculpas e a beija, diz que não quer ficar sozinha. Ela tira os óculos estilhaçados e retribui o beijo, te convidando pra passar uns tempos na casa dela. Você junta suas coisas e parte, por duas razões: o banheiro do apartamento de Alice não tem janela e, ao menos essa  noite, que você quebrou os óculos com oito graus de miopia dela, ela não terá olhos pra te ver.