A primeira vez a gente nunca esquece. Assim foi com Lívia. Naquele dia, quando percebeu, estavam sozinhos e tão próximos que a ideia surgiu assim, meio sem querer, como se brotasse, florescesse e perfumasse sua alma, simultaneamente.
O coração batia tão rápido e parecia que ia sair pela boca. Tentou resistir, mas a vontade avassaladora a queimava por dentro. Os dedos tímidos o tocaram com carinho. Naquele instante a adrenalina corria em suas veias. Um estado de pura excitação. Lívia não pensou duas vezes: rapidamente pegou o livro e o colocou na bolsa, antes que a bibliotecária voltasse após socorrer a menina que havia passado mal no museu.
Aleatórios era o título do livro. Publicado em 2019. Ela não tinha nem nascido. O exemplar era uma coletânea de contos de um coletivo de escritores que se reuniam em Nova Iguaçu mensalmente. Lívia já tinha ouvido falar deles. Era uma obra rara, edição de colecionador. Em casa, leu cada página como se saboreasse um banquete. Ficou impressionada com o conto Mãe Eterna. Chegou até a sonhar com a cozinha cheia de plantas.
Foram essas as lembranças que passaram na mente dela enquanto olhava orgulhosa a prateleira repleta de livros. Aleatórios foi o primeiro dos muitos livros arrebatados por Lívia. Uma dúvida surgiu no horizonte: seria um crime, um roubo? Ela apenas se apoderava deles. Seria julgada e condenada por amar os livros impressos? Folheara página a página em vez de tocar a tela era um prazer literário que poucos entenderiam em 2049.
Lívia sorriu. Retocou o batom vermelho. Pegou a bolsa e saiu. Quem sabe não seria seu dia de sorte e terminaria o dia com mais um livro em sua coleção?





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