Como os nossos animais

cachorro caramelo

Estavam todos no Bar da Loira, um caramelo se aproximou de um grupo de pessoas que se empanturrava de fritas, churrasquinho e cerveja. Fixou o olhar neles, tentando uma conexão, mas foi ignorado. Alguns acompanhavam a banda que tocava ao fundo. O cachorrinho passava desapercebido em meio à multidão, vez ou outra conseguia um resto de comida que caia ao chão. Mas ele era o que era: magro e faminto.

E as pessoas, como eram? Como se relacionavam fora dali e longe de um copo de chope? Estavam famintas e sedentas como o pobre cãozinho? Sedentas e famintas de que, exatamente?

Havia casais de todos os tipos. Até trisais discretos. E solteiros e solteiras também. Mas ninguém sozinho: tinham ao menos a companhia embriagante do álcool e muita comida gordurosa e saborosa para acompanhar.

A maioria parecia feliz, alguns se embalavam ao ritmo musical, havia quem entre um gole e outro cantarolava, beijava, sorria. Era uma entrega, quase um transe onde a dura realidade tivesse ficado longe em um mundo paralelo. E ali só existia o prazer que a bebida, a comida e a carne podem proporcionar.

Havia policiamento no local para evitar qualquer confusão que o álcool, além da alegria aparente, também pode fomentar.

Mas, em meio a tanta euforia, havia um homem, que apesar do barulho estridente da caixa de som que impedia uma boa conversa, conversava consigo mesmo, e atrás de um copo de cerveja apenas desejava o silêncio de um bom relacionamento. Ficou ali por horas, meio alheio a tudo. Então, caramelo chegou perto dele, e com o olhar se comunicou. E em um ímpeto, o homem se levantou:
— Garçom, me traz uma porção de carne! Tira o sal, por favor! E uma de fritas também.
— Tirar o sal?
— Sim, por favor!

O garçom estranhou, mas trouxe a gosto do freguês. E então o rapaz dividiu a refeição com o novo amigo. Ninguém notou, apenas eu. Era só uma pessoa solitária e um cachorro, e talvez não mais solitária do que as demais pessoas ali presentes, porque ser só é diferente de estar sozinho. 

Por outro lado, “eu não sou apenas eu, sou a soma de mim e o que está a minha volta”. O homem pagou a conta e caminhou em direção à estrada Luiz de Lemos e o cãozinho, no mesmo ritmo, o acompanhou.

Por que todos os relacionamentos humanos não podem ser simples, verdadeiros, honestos, sem subterfúgios, assim como fazem os nossos animais?