idoso

Combinações

Ele não havia combinado com o tempo sobre a artrite, a artrose, a diabetes… Não havia combinado sobre a hipertensão, a osteoporose, o AVC… Ele não havia combinado também com o espelho sobre as rugas, as papadas sob o queixo, os melanomas e as verrugas.

Não! Ele não havia combinado nada disso. Não havia combinado com as madrugadas sobre as saudades das pessoas que ele tanto amou, as insônias… Não! Não havia essas combinações.

Num breve clarão de sua memória ele aparecia nas festas do colégio, na sua formatura, na briga com a namorada por pequenas bobagens, no futebol que ele jogava num campinho sem grama, nos amores, parentes e amigos que partiram e continuavam a frequentar remotamente a nuvem longínqua do seu pensamento.

Não! Ele não havia combinado a chegada do Alzheimer e do início de um próximo adeus, que ele jamais gostaria que acontecesse. Não, não tinha combinado com o tempo esses percalços. Ele só tinha combinado com a vida: Amar e escrever poesias em que combinava versos e histórias sobre tudo e todos. Hoje, tropeçava nas palavras e desmanchava-se em esquecimentos e queria gritar por tantas coisas que não lembrava mais.