Ele jamais pensou que sua vida mudaria por causa do Orkut — lembram dele? Recém-chegado de uma cidade tranquila no oeste de Santa Catarina, onde o vento frio batia nas janelas de madeira e a vida corria devagar, ele agora tentava se adaptar à Seropédica, na Baixada Fluminense — onde tudo parecia mais intenso: o calor, os cheiros, o movimento e, principalmente, as pessoas.
Numa noite qualquer, sozinho no quarto de uma república de estudantes, abriu a tela azul da rede social, tentando matar o tempo jogando “Colheita Feliz”. Ao dar uma pausa no joguinho, encontrou uma comunidade chamada “Seropédica, minha raiz”. Curioso, entrou. As postagens eram simples: fotos de ruas de terra, feiras, uma igrejinha, mangueiras e pés de jamelão carregados. Mas uma imagem chamou sua atenção: uma mulher sorrindo em frente a um quintal florido, segurando um violão.
Sem pensar muito, deixou um scrap:
— Oi, tô chegando agora na cidade. Parece que Seropédica tem poesia, e acho que você sabe disso.
Ela respondeu no dia seguinte:
— Tem sim. Mas aqui a poesia anda de chinelo, toma caldo de cana e conversa nos quiosques.
E assim começou. Passaram a trocar mensagens, depoimentos e até gifs de corações que brilhavam e se moviam. Ela lhe contou sobre a cidade, os cheiros das plantações, os bailes, o jeito expansivo das pessoas. Ele contou sobre o frio do sul, os pinheiros, a saudade que às vezes apertava. Mas quanto mais conversavam, mais ele sentia saudade… dela.
O primeiro encontro aconteceu numa feirinha de estrada, perto de um vendedor de pastel e caldo de cana. Ela chegou de calça jeans, camiseta laranja, havaianas e um sorriso que valia mais que qualquer paisagem. E ali, entre o barulho da BR-465 ao fundo e a risada dos feirantes, ele entendeu que o coração também migra — e às vezes, com passagem só de ida.
Os encontros se repetiram: caminhadas pelas estradas de terra, cafés em copos plásticos, conversas e passeios na Rural. Ele se encantava com a alma bucólica de Seropédica, que ela lhe mostrava devagar. Ela se encantava com a calma dele, com o sotaque suave, com a gentileza desacostumada.
Um dia, ele disse com simplicidade catarinense:
— Quero ficar.
Ela respondeu, sem dúvida:
— Então fica.
Namoraram sob a bênção de árvores, orações e risos. Tempo depois, decidiram casar. A cerimônia foi na igrejinha branca da cidade, sem luxo, mas com verdade: flores colhidas em quintais, música tocada pelos amigos, fogos de artifício e uma alegria tão grande que parecia carregar o sol.
Ele, de terno simples. Ela, com flores no cabelo. E nos votos, ele prometeu:
— Não te encontrei na estrada, nem no trabalho… mas no azul do Orkut. Porque às vezes o amor chega cantando baixinho da tela de um computador.
Hoje, quando lembram do começo de tudo, riem ao ver que o amor deles começou com gifs brilhantes, depoimentos coloridos e uma frase que ela guardou até hoje: “Você foi a melhor coisa que já apareceu na minha tela”





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