Iara Garcia sempre gostou de escrever. No seu tempo de escola, recebia destaque em premiações promovidas pelo professor de Redação. Seus amigos, na aula de Literatura, diziam que ela seria a nova Cecília Meireles.
Cresceu querendo ser escritora, mas a vida se revelou bem mais difícil do que isso. A ficha logo caiu: para seguir escrevendo, precisaria ter outros trabalhos. Sim, porque enxergava sua arte como trabalho, embora sua família encarasse tudo como um simples hobby.
Para se sustentar, pegava serviços de tradução, fazia revisão ortográfica de monografias, ministrava aulas particulares de Língua Portuguesa, dentre outros.
Seu primeiro livro, fruto de investimento de recursos próprios, foi vendido para pouco mais de duas dúzias de pessoas. Chegou a comprar uma resenha positiva com uma influencer do mundo literário, mas de pouco adiantou. A maioria das visualizações foram fruto de contas robôs. O falso engajamento não surtiu nenhum resultado concreto.
Iara, então, começou a se interessar por concursos literários que ofereciam prêmio em dinheiro, muitos deles com inscrições pagas. Logo descobriu que sua escrita, tão elogiada na infância, parecia não ter nada de especial. Não conseguia classificação nem mesmo entre os semifinalistas. Não estava ganhando nada. Pelo contrário, gastava o que não tinha.
Apesar de não ser a rainha da criatividade, a jovem era muito observadora. Lia os textos que conquistavam os primeiros lugares, para ver se aperfeiçoava a sua escrita. Ao invés disso, começou a perceber padrões.
A resposta logo se tornou evidente. Os grandes vencedores, em muitas oportunidades, utilizavam inteligência artificial. Um rubor intenso tomou conta de sua face, a indignação se apossou de sua alma. Preparou um dossiê anônimo, revelando os resultados de seus estudos e remeteu para as principais organizadoras dos processos seletivos de contos, crônicas e poemas.
Contudo, passados seis meses, nada havia mudado nos critérios de escolha dos campeões. Mais cansada do que amanhecer de segunda-feira, Iara se rendeu ao sistema. Inscreveu-se no primeiro concurso, caprichou nos comandos do aplicativo mais moderno e enviou o texto. Tinha ficado perfeito, certamente seria a campeã.
O que a autora(?) não esperava, é que justo aquela banca havia levado a sério suas denúncias. Tinham preparado tudo para emboscar eventuais fraudadores. Remeteram os documentos para a polícia e Ministério Público, o qual acusou sete pessoas por falsidade ideológica. As provas dos autos eram incontestáveis e a sentença não tardou a sair: uma punição exemplar.
Agora Iara era uma criminosa condenada, prestou serviços à comunidade e foi banida de todos os prêmios literários.
Quanto ao uso de inteligência artificial, dizem que ficou cada vez mais refinado e, ainda hoje, pode ser fartamente encontrado por aí (ou seria… por IA?).





Deixe uma resposta