ruiva russa encaracolada

Apenas mais um relacionamento aleatório

Bem, meus queridos confrades Aleatórios, quem já me conhece sabe bem que eu tenho essa mania de ligar quase tudo ao sexo, né? Pois bem, confesso, sou assim mesmo, diria, um tanto carente. Então vou logo avisando: preparem e protejam os seus bingulins e pepecas pro que vou lhes narrar… Pronto, falei! Depois, não venham me dizer que não os avisei!  

Foi do nada que senti uma necessidade na minha pacata vidinha de que eu fizesse impostação de voz e cantasse algo próximo a uma ópera de Puccini. É óbvio que isso não daria em coisa alguma! Esse lance de eu me tornar um tenor da noite pro dia…? Como? E… Pra quê?! Decidi assim, isso, isso e pronto. É que alguém havia me falado sobre uma nova moradora no prédio. Seria tipo uma refugiada de guerra e que era excelente no contralto, soprano e coisa e tal. Estávamos todos passando por uma fase, sabe como é que é né (?), com a pós pandemia aqui, a guerra lá! E fui lá conhecê-la. ♪Ding-dong♪ E foi só ela abrir a porta que fiquei de cara tão impressionado e comovido com aquela figura, diria que, super exótica: alta, voluptuosa, poderosamente nórdica e também… tão tropical; sua longa cabeleira ruiva e encaracolada contrastava e emoldurava a sua tez amorenada. Petrifiquei. Vi e ouvi corpo, canto e encantos tudo em sintonia. Virei logo seu maior fã… 

Ela, então uma vez contratada minha professora de canto lírico, com a sua entonação vocal de desafiar os anjos me encantara em vários lugares. Logo ficamos bem íntimos. Veio lá de Kiev, fugindo da guerra, embora fosse baiana de nascença – vai entender os tais desígnios do destino, uma baiana criada na Ucrânia surgir logo aqui na Baixada e na minha vida, só pra me ensinar o canto lírico – é mesmo coisa de endoidecer. Então, fazer o quê? Devia eu estar mesmo predestinado a conhecê-la. Não há outra explicação para esta minha inusitada vontade de cantarolar uma ópera ao estilo Tosca, ou coisa que valha! E foi a partir da segunda semana de nossas audições que ela me prometera uma performance exclusivista pra mim, algo como uma espécie de “strip dance” dos meus sonhos. Disse-me assim em seu linguajar aglutinado:
– Ó mio amore! Solfejes apenas uns lá-lá-lás perfeitos e me faças orgulhosa, então verás os meus verdadeiros demônios…

E lá estávamos: ela personificando uma ibérica e impenetrável matrona clássica e eu embutido num ingênuo, porém esmerado e apaixonado pintor de afrescos… E foi assim que, a partir daquele belo dia, me vi fantasiando a minha professora baiana/ucraniana de canto lírico totalmente nua! Só me coube, então, realizar a tal proeza, fazer um cover do Pavarotti… 

Creiam-me, senti algo me incorporar naquele momento crucial e consegui sustentar um vozeirão lá em cima. Isso em pelo menos dois atos… e aquilo mexeu comigo e, também, com ela… Ela, então, se empoderou de vez, passando a fazer um dueto comigo e já dando início ao prometido strip, despindo-se enquanto semitonava seus lá-lás preferidos; primeiro vi lhe cair a tal peruca ruiva – e lhe revelar uma bela careca – depois, ela foi tirando as roupas sobrepostas, uma a uma, enquanto emitia acordes que faziam estremecer as paredes e tilintar as louças. Aquilo me tocou tão fundo na alma que fui me despindo junto e logo ficamos nus; eu, totalmente excitado, solfejei uma quase ária; ela então, naquele ato do crescendo, fizera uma espécie de balé, misto de plié com samba e de várias transcendências… Cri, então, faltar muito pouco para o gran finale… Eis que, toda rebolativa, ela se vira de costas e, aos trejeitos e maneios sensuais me mostra uma espécie de zíper colado na base da nuca e solfeja em alto e bom som: ♪Abra-me toda♪. Trêmulo de horrores, tensões e tesões acumuladas, em posse da alça metálica, passo a lhe abrir inteira, ouvindo e sentindo a vibração do deslizar e do correr contínuo do fecho ecler sobre a sua pele macia que vai se abrindo inteiramente, de cabo a rabo, e a vi despencando lentamente, revelando, por debaixo, outra pele, um pouco menor e ali, na nuca, mais um zíper… Abri-o; depois outro por baixo e mais outro; e as peles foram se amontoando aos meus pés, uma a uma, enquanto a sua voz parecia também fluir num descendo, até que lhe soprasse um suspirinho fraco e sobrasse apenas uma pequenina boneca de pano ali sobre as minhas mãos trêmulas; a minha figura flácida e a minha voz numa tosca imitação do trinado do Bob Esponja… Nas costas da boneca liam-se inscrições em vários idiomas, das quais identifiquei: “Made in China”.