calcinha vermelha

Amuleto

Ele chorava copiosamente pedindo para que ela não o abandonasse. Ela estava com muita raiva e, apesar de ainda nutrir um forte sentimento por ele, não mais queria ouvir suas desculpas. Abriu o guarda-roupa com força e jogou sobre a cama, mostrando toda a sua raiva, uma mala antiga, ainda do tempo em que eles se conheceram. Enfiou de qualquer jeito suas roupas na mala: vestidos, camisola, saias, calcinhas e algumas bijuterias baratas, guardadas numa pequena caixa de presente. Foi até ao banheiro, pisando firme, pegou os seus cremes, shampoos e escovas. Recolheu no cesto de roupas sujas as coisas que lhe pertencia.

Ele continuava a suplicar: “Foi a última vez, eu prometo que não vai mais acontecer…” Ela olhou para ele e seu olhar parecia fulminá-lo. Não falou nada, apenas bateu a tampa da mala e fechou o zíper, saindo sem sequer olhar em sua direção.

As lágrimas que continuavam a brotar nos olhos dele não o impediram de vislumbrar que ficara sobre a cama, esquecida por ela, uma calcinha vermelha, que ela pegara no cesto de roupas para lavar e, em sua pressa, havia esquecido sobre o amarrotado lençol. Pensou em ir atrás dela para lhe entregar aquele pertence e, quem sabe, em um último diálogo, poderiam se reconciliar. Porém, quando ele chegou no portão, o taxi já havia partido, o que lhe deixou novamente em prantos. Sequer sabia qual seria o destino daquela mulher que ele amava tanto e que estava perdendo por sua própria negligência.

Voltou para dentro de casa, ainda com a calcinha dela na mão, levou até suas narinas, o que lhe trouxe de volta todas as lembranças felizes e eróticas dos tempos em que eles não iniciavam o sexo de imediato, mas ficavam brincando de carícias e beijos, até não aguentarem mais, e só então, tiravam toda a roupa e naquele instante ele, de posse de sua calcinha, já bem úmida, usufruía daquele odor das deusas, para só então iniciarem a parte final.

Agora ele estava ali, parado no meio da sala, e a única coisa que restou dela era aquele amuleto, que naquele instante também servia para enxugar as suas lágrimas e a dor da saudade, agora tornava-se terrivelmente insuportável.