Sabia que aquela seria sua última viagem, mas não a tinha planejado. Apenas sabia que estava a caminho. Para onde ainda não tinha ideia. Porém, era muito estranho tudo que estava ocorrendo. Ao mesmo tempo em que vislumbrava novas paisagens, também conseguia visualizar imagens de viagens anteriores que também não havia planejado, mas que fizera.
A primeira foi do Ceará para o Rio de Janeiro. Mais precisamente de Limoeiro do Norte para ser abraçada por Nova Iguaçu. Era poeta e seus versos militantes a levaram ao exílio em época de ditadura. E viajando a pé, de barco, cavalo, ônibus ou no trem da morte, saindo pelo sul do Brasil em direção ao norte do continente, percorreu fronteiras, cruzou países. Do Paraguai, Argentina, até chegar na Bolívia. Passou pelo Uruguai e Cuba. Foi em Cuba que reencontrou o homem mais bonito que conheceu no Rio de Janeiro tempos atrás e por quem havia se apaixonado, sem nunca ter sido correspondida.
Em Santa Cruz de La Sierra foi presa, junto com outros companheiros de militância. Após conseguir a liberdade conheceu outros países da América Latina e retornou ao Brasil, fixando-se em Cabuçu.
Agora, na viagem final, sentiu-se leve. As paisagens são fluidas e desconhecidas. Parece ter chegado ao seu destino e qual não foi sua surpresa ao ser recebida por um homem de estatura mediana, cabelos castanhos escuros, olhos também castanhos, rosto fino e angular, com nariz proeminente, bigode espesso e uma boina que combinava muito com seu rosto, considerado por ela lindo e marcante. O reconheceu na hora. Sem esconder sua alegria, sentindo-se no paraíso, retribuiu o abraço aguardado por tanto tempo:
– Ô meu camarada, Chê! Se eu soubesse teria embarcado nesta viagem antes!





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