A primavera sempre foi a estação preferida de Lourdes. Seu bem cuidado jardim ficava mais colorido do que nunca. O amarelo das margaridas, a delicadeza das violetas, o perfume das rosas – rosas, vermelhas e brancas eram suas preferidas. As borboletas esvoaçantes a convidavam para a dança, por vezes ficava ali, por quase meia hora, bailando com aquelas encantadoras lagartas voadoras. Mas hoje não havia tempo para isso.
Foi ao seu cantinho da horta, um local especialmente planejado em termos de luz e sombra. Precisava colher um ingrediente imprescindível na receita da pizza de sua família, passada por décadas de mãe para filha. O manjericão deveria ser exposto ao sol por cinco, no máximo seis horas diárias. A terra precisava ser adubada com húmus de minhoca a cada quarenta dias. Afinal de contas, a saudade é a única planta que cresce exatamente onde não há o cuidado, onde há falta de presença, de notícias, de carinho. Todas as outras precisam dos nutrientes indispensáveis para que possam se desenvolver de forma saudável.
Colhido o manjericão e preparada a massa, era a hora de cuidar da sobremesa. Bolo de laranja com raspas de limão, o preferido de Junior. Depois de seis meses com ao menos quatro tentativas frustradas de reencontrar seu filho, Lourdes, hoje, tinha a garantia de que ele vinha. Estava muito feliz. Até sua estação favorita do ano resolvera aparecer de verdade, com aquele céu azul que realça a beleza das árvores e flores, mas sem o calor insuportável dos dias anteriores. Tudo estava perfeito.
O cheiro forte de laranja dominando a cozinha trazia a memória de seu filho chegando à casa depois do futebol e querendo meter a mão imunda no bolo quentinho, recém-saído do forno.
– Tuninho, vai tomar seu banho primeiro, meu filho, enquanto esfria aqui. Bolo quente dá dor de barriga.
Lourdes não sabia se dava mesmo dor de barriga, isso era o que sempre ouviu de sua mãe, de sua avó, de sua bisavó. Verdades herdadas que não precisavam de comprovação. Há muitos anos que não chamava o agora Dr. Antônio Prata Alves Junior de Tuninho, o menino não deixava, desde que completou dez anos. Ela não sabia se essa decisão tinha a ver com a constante ausência do pai, mas Lourdes acreditava que sim. Quando seu marido Antônio faleceu, há cinco anos, Junior sequer chorou.
Ela sim havia chorado bastante e chorava ainda. O velho podia ter seus defeitos, mas depois que se aposentou era uma companhia, quase uma boa companhia. A cunhada e os sobrinhos desapareceram depois do velório, era como se tivesse perdido todos junto com o marido. Sua vida seria uma completa solidão…
Tinha dificuldade em admitir, mas seria pior se não fossem suas vizinhas chatas, Lili e Neide, que sabiam tudo das fofocas mais recentes e tagarelavam ininterruptamente sobre desimportâncias. Ao menos preenchiam o vazio de suas horas.
Falando em horas, cinco e vinte, quase na hora. O filho tinha marcado para as seis. Tudo já estava pronto. Só faltava tomar banho e se arrumar. A luz do celular acendeu:
– Mãe, desculpa. A coisa encrencou aqui no trabalho. Vou precisar sair mais tarde hoje. Depois a gente remarca direito (emoji de beijinho com coração).
Ela não acreditava no que estava lendo. Pelo menos no mês passado ele tinha tido a decência de ligar. Lourdes desistiu de tomar banho naquela hora, resolveu jogar buraco pelo aplicativo do celular. Quando estava na terceira partida, viu uma nova mensagem de Junior:
– Partiu happy hour.
Em seguida ele apagou. Sempre mandava errado. Quando eram banalidades, a mãe até se divertia e usava a figurinha do “Deus leu o que você apagou”. Dessa vez, no entanto, não teve a menor vontade de fazer graça. Preferiu fingir que não viu.
Enquanto a lágrima regava a planta da saudade, Lourdes ainda teve forças para encontrar um esboço de sorriso. Pelo menos o seu Tuninho teria uma hora feliz.





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