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O olhar de Nia

Nia, uma jovem trabalhadora doméstica, avista um monstro gigante que surge no horizonte. Um monstro que vem de longe, atravessando mares e que aponta no Oceano Atlântico; nas praias brasileiras. Ele traz sofrimento, horror e morte.

Durante a longa viagem, cospe doenças, corpos fétidos e também dispersa almas que ficam a espreitar seus entes queridos, sobreviventes acorrentados a uma dor sem igual.

É possível ver em seu ventre pessoas em total agonia, amontoadas, famintas, sedentas, com frio ou calor, tendo que fazer suas necessidades no mesmo lugar em que tentam se acomodar. 

Eles estão em pânico, o qual nem eu, nem você, pode imaginar. Todos têm um destino: o Valongo. Lá, são recebidos por outros monstros de forma humana e de tez branca. Neste lugar inóspito são tratados como rebanhos de animais sem valor. Pior, são tratados como meras mercadorias, retirados e jogados à própria sorte. Mas, parece que eles sentem um pequeno alívio ao saírem, por não estarem mais contradizendo a lei da Física. Pais, filhos, amores, amigos são separados. Alguns vão para a engorda; outros são lançados ao mar e desaparecem para sempre. Os mortos que não foram jogados nas ondas gigantes são agora esquartejados, queimados todos juntos e soterrados, sem qualquer distinção e identidade.

Durante séculos, tudo fica soterrado e esquecido. Exceto as almas que ainda não descansaram e esperam por uma reparação. Nada ficará escondido para sempre.

 Nia se debate na cama. Ela ouve estrondos semelhantes ao choque de corpos nas ondas do mar revolto. Acorda e, ainda sonolenta, sente na pele que nem tudo foi apagado. Ela fica assustada com todas aquelas imagens na cabeça. O barulho vai ficando mais intenso e começa a remeter a sons de tambores e atabaques. Ela fica atenta, sem entender, até que é totalmente despertada com socos na porta de seus singelos aposentos:
— Negrinha! Levanta e vá cuidar de seus afazeres, menina!

É sua patroa que nunca lembra seu nome. A jovem que acorda de um pesadelo com o passado, desperta numa realidade aquém de reparações, apesar de dois séculos já terem decorrido.

Ela levanta em silêncio e, aparentemente resignada, vai preparar o almoço, quando ouve na rádio local a notícia de que Valongo foi redescoberto e lá foi encontrada toda uma história que tentaram abafar. Mas a história dos Navios Negreiros e do Cais do Valongo não podem ser esquecidas. Nia vai de encontro a um passado que ela nunca vivera e fica reflexiva:
— O que foi, Neguinha? — Notou sua patroa.
— Tenho nome, Dona Aurora!
— Tá ficando respondona… Você é como da família. Neguinha é carinho! Seu nome é estranho: Mia? Nina? Bia? Nunca lembro. Mas, talvez, se alisar esse cabelo, eu me lembre do seu nome.
— Vai lembrar não. Meu nome é africano. Mas, quem sabe se voltar a estudar, pesquisar o significado, talvez vá se lembrar dele…? Ou talvez, lembre na hora de assinar a minha carteira e pagar todos os meus direitos!

Nia, esperta do jeito que era, gravava quase todos os insultos e injúrias mas, na verdade, tinha até dó de Aurora. Aurora tinha pele clara como o próprio nome sugere, lábios grossos, nariz meio largo, os cabelos lisos na prancha. Ela não tinha consciência de quem realmente era. Não passava pelos mesmos constrangimentos sociais. Mas, nada justificava suas atitudes, fosse quem fosse:
— Nossa, tem resposta pra tudo, hein!? Isso é a escola…

E por falar em Educação, Nia se lembra que mais tarde, à noite, depois do expediente, irá para o colégio. Aprenderá mais sobre seus ancestrais, política, direitos e sobre muitas outras coisas pelas quais se interessa. Nia tem um propósito: olhar para o passado para melhorar o presente e o futuro. As coisas estavam mudando. A primeira presidenta havia sido eleita no Brasil. Faltava ainda uma mulher negra ocupando um lugar de igual destaque na política. Quem sabe, não será ela?