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Vozes

Foi o turbante, pensa Maurício. É meio assustador um homem de turbante. Pior ainda: vários homens de turbante. Não. Foi outra coisa. Foi o fanho da voz. Isso. Foi a voz.  Aquela voz fanhosa. Aquela voz fanhosa que o remeteu aos funkeiros dos anos noventa, tipo um MC Cidinho cantando “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci”. Como parecem essas vozes! Ambas convocam. O funk anos noventa convocava seus irmãos aos bailes do Heliópolis em Belford Roxo – Maurício era pequeno demais para ir junto. Essa voz que vem da cabeça, passa pelo nariz, meio que espremida, entalada, como se saísse à força, feito a voz que o distraiu após deixar um passageiro no Cais do Valongo, voz dos homens de turbante cantando “Todo o pessoal manda descer pra ver Filhos de Gandhi”. O mesmo anasalado do som que o convocava aos bailes, no tempo que ele ainda não podia ir, foi o que convocou sua atenção com tamanha intensidade, quando passava pela Rua Camerino, que ele bateu o carro no qual fazia Uber. 

Durante alguns dias pensei se colocaria Maurício, este personagem assustado, na narrativa. Escolho incluí-lo porque a literatura que gosto é aquela que revela algo das contradições humanas. Para mim é coerente que Maurício, um homem da Baixada  Fluminense, tome um susto com homens de turbantes. Ele nega, mas se assustou. Na esquina da casa onde fora criado, havia um Candomblé com cânticos a noite toda e ele dormia assustado. Quando passava de noite, uma rua escura, na beira de um valão, ele olhava lá pra dentro e via os turbantes. Todo mundo dizia: Ali só tem viado. Ali bebem o sangue do boi. Ali oferecem os doces pro diabo. E quando passava na Rua Camerino, era dentro do Tinguá, indo trabalhar cansado, descendo na rodoviária atrás da Central. Ali só tem cracudo. Ali só tem bandido. Ali só tem sujeira. Ninguém nunca disse: ali vendiam os escravizados. Ali era um shopping humano. Os terreiros foram expulsos dali para a Baixada. As vozes são muitas. Elas podem convocar, mas também amedrontar. 

De dentro do caminhão-reboque, pensa que pela cara do moço do seguro, a batida foi feia. Quantos dias ficará sem rodar? Como vai sustentar a família durante esse tempo? Problemas a resolver. O ijexá, porém, não sai de sua cabeça. Seu corpo inquieto, a perna balançando. Os homens de turbante parecem tão imponentes. De repente, Maurício tem uma ideia: vai ligar pros seus irmãos mais velhos. Talvez eles tenham como emprestar algum dinheiro enquanto o carro estiver ruim. Talvez ainda possam tomar um café e lembrar os velhos tempos. Agora finalmente ele está grande o bastante para saber como eram aqueles bailes funk dos anos noventa no Heliópolis. E agora também pode contar que desceu pra ver Filhos de Gandhi. Agora ele tem o que contar.